Act 2

«Ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento»

Vamos contemplar o nascimento da Igreja e ter a ousadia de nos colocarmos ali e assim contemplarmos o nosso próprio nascimento. Os apóstolos estão congregados ao redor de Maria e o Espírito Santo descerá sobre eles e dará vida ao Corpo de Cristo que é a Igreja, servindo-se da colaboração da Virgem Santíssima, tal como contou com ela para dar a vida humana ao Filho de Deus. 

O Espírito Santo chegou como vento, porque «o vento sopra onde quer, mas não sabes de onde vem nem para onde vai» (Jo 10, 3-8) e a obra do Espírito Santo é completamente livre e tudo o que Ele nos dá é dom gratuito, porque Ele é em si mesmo: o grande dom de Deus.

Chega como vento impetuoso que liberta de todo o estorvo e derruba qualquer obstáculo: «A voz do SENHOR retorce os carvalhos, derruba as árvores dos bosques» (Sl 28, 9). Mas não é um vento destruidor, é um vento que impõe ordem. Por isso é um vento com nome, chama-se “sonus”. O “sonus” é um vento harmonioso. É um som que enche toda a casa, que enche todas as faculdades da pessoa, que nos plenifica: «O Espírito do Senhor encheu a terra inteira, Ele que tudo possui conhece todas as coisas» (Sb 1, 7).

Duas coisas vemos no Espírito de Amor que vem até nós: a primeira é que enquanto derruba os obstáculos e resistências, que lhe pomos, é um vento impetuoso, a segunda é que ao entrar na intimidade da nossa alma se percebe como um som harmonioso e suave. Isto desafia-nos a calar os ruídos do exterior, a deixar que o ímpeto do vento do Espírito varra todo o nosso exterior para nos recolhermos no nosso interior e nos habituarmos a escutar o murmúrio suave. Só assim aprenderemos a perceber bem a voz Espírito.

«Desceu em forma de línguas de fogo»

Depois de ter escutado aquele vento impetuoso, os apóstolos viram, descer sobre eles, o Espírito em forma de línguas de fogo. A Moisés, Deus aparece sob a forma de sarça-ardente que não se consome. E Jesus diz: «Eu vim trazer o fogo à terra. E que quero eu senão que ele se acenda?» (Lc 12, 49) Isto diz-nos que o nosso Deus é imutavelmente fogo de amor. Se nos aproximamos a Ele com fé, Ele ilumina-nos e aquece-nos: «Voltai-vos para Ele e ficareis iluminados» (Sl 33,6). E se nos determinamos a fazer da caridade o motor da nossa vida, então unimo-nos a Ele até chegarmos a ser uma só coisa com Ele, porque «Deus é Amor e o que vive no amor permanece em Deus e Deus nele» (1Jo 4,16).

O Fogo do Amor está diante de nós, quer pousar sobre cada um de nós como língua de fogo e quer entrar em nós como espírito de vida. Como língua para nos ensinar todas as coisas que devemos pedir a Deus; para nos fazer proclamar as maravilhas do Senhor e dizer a todos como o «Senhor é bom»!

«Empurra-os para fora»

Apenas o Espírito desceu sobre eles e empurra-os para fora do cenáculo. Saem com aparência de ébrios, de tal maneira que Pedro se vê obrigado a explicar a todos os judeus que os seus companheiros estão cheios do Espírito Santo, Aquele Espírito que já tinha sido profetizado aos antigos.

O Espírito empurra-nos para fora de nós mesmos, porque fomos ungidos pelo Pai no amor que derramou em nossos corações ao dar-nos o Espírito Santo. O Espírito divino é esse alento de vida nova que renova todo o nosso ser e nos faz olhar para nós com olhos novos. Nos faz ver Cristo em nós, porque Ele é o Espírito de Cristo e do Pai.  

O Espírito Santo também não é desconhecido de Teresa dos Andes. Ela fala-nos do Espírito Santo, ao falar-nos das Pessoas da Trindade, a sua vivência leva-a a denominar os Três como: Deus Pai, Deus Esposo e Deus Santificador. «Olho primeiro a Deus, essa Trindade incompreensível, e abismo-me no seio do meu Pai, do meu Esposo, do meu Santificador». «Que dita, quando nos encontremos sumidas no oceano infinito do Amor, no Seio do nosso Pai, no costado do nosso Esposo, e unidas eternamente pelo Espírito Santificador!»

O Espírito Santo aparece como o guia dos caminhos de Teresa enquanto santificador íntimo: «Nosso Senhor disse-me que queria que me deixasse guiar inteiramente pelo Espírito Santo.»

Teresa sabe que Deus é um amor que se dá. «Amor puro, desinteressado e imutável». É um Deus com vida interna própria, que se quis dar a conhecer. Por isso reveste-nos do seu próprio ser. Deus é santidade que se comunica. «Então, no íntimo da minha alma, de uma maneira rápida, fez-me compreender o amor que o fazia sair de si mesmo para me procurar». E esta procura de cada pessoa por parte de Deus é para fazê-la semelhante a Si mesmo, depois de prepará-la devidamente: «Despojou-nos do espírito do mundo, para nos vestir com o Seu Espírito Divino. Esse amor divino é em mim duma força irresistível, e cada dia é mais profundo».

Teresa propõe-se responder a este desejo de Deus, de a vestir do Espírito Divino, «Vivendo em unidade de pensamentos, em unidade de sentimentos, de acções, e assim, o Pai ao ver-me encontrará a imagem do seu Filho. E o Espírito Santo, ao ver o Pai e o Filho em mim vai-me fazer sua esposa e as Três Pessoas virão morar em mim». Também nós unidos a ela pedimos a Deus que nos despoje do espírito do mundo e nos vista com o Seu Espírito Divino.

Ó Espírito Divino
Vem a mim e
Reveste-me de Ti.
Tira-me para fora de mim
e enche-me com o murmúrio suave da tua voz;
Aquece-me com o fogo de amor que é a caridade,
e ilumina-me com a luz da Verdade Eterna.
Que todos fiquem cheios de Ti,
ó Espírito Santo de Deus!