A vida contemplativa é a ‘memória viva’ do mistério de Cristo em todo o seu esplendor. A ela estamos todos chamados, porque todos somos convidados “àquele misterioso encontro com Deus que é a oração” (VS 1). Porém, de entre nós, Deus escolhe alguns para que no silêncio e na solidão do claustro se entreguem mais plenamente a este memorial divino realizado pelo Eterno Pai, que é o ‘contínuo descontinuo’ da ‘encarnação’ do Seu Verbo, isto é, a ‘re-criação’ de cada ser humano que se abre à graça e se deixa configurar com Cristo, na totalidade do seu mistério.

Levados pela mão de S. Lucas vamos aproximar-nos do mistério da vida contemplativa pela porta do nascimento de Cristo, mais precisamente da figura dos Pastores. Depois do Anjo do Senhor lhes ter aparecido e os ter envolvido à luz da glória do Senhor, depois de terem escutado o anúncio da grande alegria, que é o nascimento de Cristo Senhor, e terem ouvido uma multidão celeste a louvar a Deus, dizem entre si: “Vamos já a Belém e vejamos o que aconteceu, o que o Senhor nos deu a conhecer.” (Lc 2, 1-20)

O mistério da vida contemplativa está aqui, neste ‘vamos ver o que o Senhor nos deu a conhecer’. O Senhor vem ao encontro e revela-se, dá-se a conhecer, estabelece um diálogo de fidelidade e amor com cada um dos que chama e introdu-los no dinamismo próprio do mistério da ‘Encarnação’ que é a própria contemplação. A vida contemplativa é o deixar-se envolver e submergir pela corrente de amor que é a história da salvação.

Cada mosteiro contemplativo é uma ‘Belém’, uma ‘casa do pão’ como significa Bethelem – um espaço em que o ‘Verbo se faz carne e contemplamos a sua glória de Unigénito do Pai’ (Jo 1,14). Uma gruta como aquela em que Elias esperou a passagem do Deus vivo (1Rs 19). Ou um monte em que Moisés sobe para falar com Deus. Ir a ‘Belém’ é ‘descalçar as sandálias’ e entrar na terra sagrada que é o mistério da Encarnação, o assumir, de Deus, da nossa natureza humana. Entrar na gruta de Belém é ir a esse “lugar solitário”, esse ‘lugar separado’ pela presença do próprio mistério divino. Um mosteiro é essa ‘gruta de Belém’, esse ‘oásis de paz’ iluminado pela luz da glória do Unigénito do Pai, em que “acolhendo o Verbo na fé e no silêncio adorador, os contemplativos se colocam ao serviço do mistério da Encarnação” (VS 4).

O chamamento à vida contemplativa é um dom gratuito e amoroso do nosso Deus, como é o chamamento à santidade feito a todos os cristãos. O contemplativo é aquele que enamorado pela Beleza de Deus, se deixa atrair pela Sua luz e conduzir pela Sua voz e decide pôr-se a caminho para ver o que aconteceu e que o Senhor lhe deu a conhecer. Neste seu pôr-se a caminho, Ele assume a vanguarda de toda a Igreja e ‘proclama o ano da graça do Senhor’ tornando-se profeta do tempo novo, fazendo suas com verdade e realismo as palavras do discípulo amado: «O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida, de facto, a Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho e anunciamo-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós, o que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós estejais em comunhão connosco. E nós estamos em comunhão com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.»

Maria é a primeira a ter a ousadia de ir ver o que o Anjo do Senhor lhe tinha dito acerca de Isabel (Lc 1, 39-45) e a confirmar no mais íntimo e profundo do seu ser como a «palavra do Senhor é viva e eficaz» (Hb 4) e que como diz o Senhor pelo Profeta Isaías «a palavra que sai da minha boca: não voltará para mim vazia, sem ter realizado a minha von­tade e sem cumprir a sua missão» (Is 55, 11). Ela vê acontecer na sua própria vida a realização de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor.

Contemplar é “ir ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer”. E os primeiros contemplativos da história são os pastores. São eles que na escuridão da noite vêem a glória do Senhor, envolve-os a sua luz, e, escutam a voz que lhes diz: «anuncio-vos uma grande alegria: nasceu-vos hoje um Salvador, que é Cristo-Senhor.» O dom da vocação contemplativa é sempre um ver na noite da fé a luz de Deus e ouvir a sua voz, manifestada no Verbo, palavra única do Pai. Um ver na fé para conhecer no amor e viver em esperança. Uma esperança que é espera orante da voz que nos manifesta a grandeza do Amor divino e nos oferece o dom da paz. «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados». Os contemplativos envolvidos pela luz do Senhor e deslumbrados pela sua glória deixam-se inundar pela grande alegria do ‘hoje’ da salvação oferecida pela presença divina e ‘aderem totalmente ao Senhor’ (cf. VS 1).

«Vendo-O [os pastores] contaram o que lhes fora dito a respeito deste menino» (Lc 2,17). A contemplação confirma o que se vê pela fé. Pela fé eles acreditaram e pelo conhecimento amaram, como diz S. João «quem ama conhece a Deus», e, tornaram-se testemunhas vivas da Sabedoria do Amor de Deus, «Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu próprio Filho, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna». No hoje da contemplação, o contemplativo é chamado a viver o encontro com o mistério do Salvador que é Cristo Senhor e a tornar-se discípulo, testemunha e profeta da Sabedoria do Amor de Deus. Na raiz da vocação do contemplativo está um encontro de amizade com a pessoa de Jesus. Um encontro com o Verbo Encarnado, o mesmo ‘Verbo’ no qual ele é dito e se acolhe do Eterno Pai, aprendendo assim a viver na intimidade da exultação da filiação divina. É este encontro que faz do contemplativo uma pessoa ‘escondida com Cristo em Deus’, porque antes de se ‘esconder’ na clausura do mosteiro, Deus escondeu-o, com Cristo e em Cristo, no seu mistério de amor.

Neste ‘vamos ver o que aconteceu e Deus nos deu a conhecer’ antevê-se que Deus realiza na história o que faz ver na fé, realiza na vida o que faz ‘pré-sentir’ no íntimo do coração. Deus revela-se como único Deus verdadeiro e vivo por palavras e por obras, para que pudessem ser conhecidos, por experiência, os seus planos sobre a humanidade e pudessem ser compreendidos mais profunda e claramente (cf. VD 11). A vida do contemplativo forja-se na contemplação dos sinais de Deus na história e no mundo descobrindo o realismo do Verbo. A realidade da contemplação emerge do reconhecimento de tudo ter sido feito no Verbo e por Ele tudo subsistir (Jo 1,3). Bento XVI diz-nos que «realista é quem reconhece o fundamento de tudo no Verbo de Deus», assim, o Verbo torna-se por essência a terra sagrada que o contemplativo pisa. O ‘livro da Sabedoria Eterna’ com que olha a realidade e com que ”dócil ao Mestre interior que é o Espírito Santo e vivificado pelos seus dons, deixa a sua vida conformar-se com a do Filho bem amado do Pai, como expressão de louvor e glória” (VS 3).

No seu ‘ir ver’ orante do mistério de Cristo, ele aprende a ver a realidade desde o Deus que o possui e que possui todas as coisas. O contemplativo é aquele que tem o olhar de enamorado, próprio de Deus, e por isso não conhece a Deus desde o homem, mas o homem desde Deus. Conhece cada ser humano em Deus e este é o verdadeiro encontro com ‘o mistério do Salvador que é Cristo Senhor’, porque, a todos, o Pai «do alto dos céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo» (Ef 1,3).

A vida contemplativa claustral vivida nesta tensão vigilante de ‘ir ver o que Deus nos deu a conhecer’, converte-se numa resposta ao amor absoluto de Deus pela sua criatura e na realização do seu desejo eterno de acolhê-la no mistério de intimidade com o Verbo (cf. VS 3).

A docilidade dos Pastores a esta inspiração divina é resposta ao diálogo Trinitário no amoroso acto de condescendência divina, e, em cada contemplativo, é participação no Espírito, no diálogo do Pai com o Filho, na manifestação da beleza que é a Verdade de Deus – O Verbo Eterno luz dos homens – (Jo 1, 4). E a luz está em participar no eterno diálogo de amor, em “espírito e verdade”, que é a plenitude da aliança com cada contemplativo.

Contempla com o Coração

A contemplação do coração
 é olhar a vida por dentro com os olhos da alma e a luz da fé;
É o descansarmos na confiança
de estarmos a ser amados neste preciso momento;
É o deixarmos que Deus nos sussurre baixinho:
“Ainda que tenhas de passar pelo fogo nada temas porque Eu estou contigo”;
É o acreditar na realidade divina que se esconde
 sob a frágil humanidade da nossa existência;

A Contemplação do Coração

É a leitura gozosa do Evangelho
que Deus vai escrevendo com a nossa vida;
É a bênção da Presença de Deus feita “nova encarnação”
e manifesta em nosso ser como nova criação;
É abrir para o alto as asas do entendimento
e acolher de Deus a luz que nos converte em sacramento;

A Contemplação do Coração
Não se dá em nenhum momento
porque ela é vida momento após momento;
Ela resgata-nos do sem sentido
e faz-nos sentir de Deus o Amor de Filho querido;
É um eterno enamoramento,
para o qual Deus espera o nosso consentimento;

A Contemplação do Coração
É o que te faz saber que Deus é um só contigo,
feito carne no teu ser…
Faz sacramento do teu viver,
celebra o memorial da contemplação e
verás os frutos amadurecer em fecundidade de oração;
Deixa que Deus te consagre em cada amanhecer,
porque só assim saberás o que é a Deus pertencer;
Contempla com o coração tudo o que te acontecer,
porque um dia verás que era a TRINDADE que te estava a envolver.
Contempla com o Coração
E verás a beleza de Deus em ti florescer! 

CONTEMPLA COM O CORAÇÃO