Queridos amigos

Todos estamos chamados em Cristo a alcançar a plenitude do nosso ser e a recuperarmos novamente a nossa identidade de filhos de Deus, mas para isso temos de percorrer um caminho. Diante de nós abre-se o caminho de olharmos coração a coração a Cristo e aceitarmos o desafio de reviver em nós os sentimentos de Cristo no mistério da sua Páscoa Redentora.

Diz-nos Santa Teresa Benedita da Cruz que: «Quem pertence a Cristo, tem que viver toda a vida de Cristo. Tem que alcançar a maturidade de Cristo e percorrer o caminho da cruz até ao Getsêmani e ao Gólgota». Nesta Semana Santa vamos determinarmo-nos a seguir a Cristo com o olhar do coração e descobrir que o amor é o centro de toda a sua vida e seus mistérios. Convidamos a todos, os que queiram, a percorrer este caminho connosco.

Em Cristo não houve nada que apresentasse resistência ao amor. Em todos os momentos da sua existência viveu entregue ao amor do Pai. Ao fazer-se homem tomou sobre si toda a carga de pecados humanos, abraçou-se com eles no seu amor misericordioso, escondendo-os na sua própria alma, com aquelas palavras: «Eis que venho», com que deu início à sua vida na terra, voltando depois a manifestá-lo com o seu baptismo: «Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» e por último com o «Faça-se» do Getsêmani. Assim, foi acontecendo o seu sacrifício de expiação, primeiro no seu interior, e depois em todas as dores ao longo da sua existência, mas de modo mais espantoso no Jardim das Oliveiras e na Cruz, porque ali desapareceu o gozo em que a sua alma vivia pela união hipostática. Ficou totalmente à mercê da dor até chegar a viver o total abandono de Deus. É o «tudo está consumado» que apontará o fim deste holocausto expiatório, e, o «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» que será o retorno definitivo à eterna e inalterável união de amor.

Quando olhamos demoradamente o coração de Cristo vemos que existe ainda outro valor que o move: fazer a vontade do Pai – «o meu alimento é fazer a vontade de meu Pai». Desde o amor e o desejo de fazer em tudo a vontade do Pai vamos aproximar-nos ao mistério da última Ceia de Jesus:

«Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: «Tomai, comei: Isto é o meu corpo.» Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos. 28Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados.29Eu vos digo: Não beberei mais deste produto da videira, até ao dia em que beber o vinho novo convosco no Reino de meu Pai.»(Mt 26, 26-28).

A bênção e a distribuição do pão e do vinho eram parte do rito da ceia pascal. Contudo Jesus atribui-lhes um sentido completamente novo… é na ceia pascal que tem lugar o enxerto dos ramos na videira, que torna possível a efusão do Espírito. As antigas orações de bênção converteram-se, na boca de Cristo, em palavra criadora de vida. Os frutos da terra converteram-se na Sua Carne e no Seu Sangue, cheios da sua vida. A criação visível na que entrou pela sua encarnação, está agora unida a Ele de um modo novo, misterioso. As substâncias que servem para alimento do corpo humano transformam-se radicalmente quando recebidas com fé e transformam também aqueles que as recebem: incorporando-os numa unidade de vida com Cristo e enchendo-os da sua vida divina. A força da Palavra criadora de vida está vinculada ao sacrifício. A palavra fez-se carne para oferecer a vida que recebeu; para se oferecer a si mesmo e à criação redimida como sacrifício de louvor ao Pai. Na última ceia do Senhor a ceia pascal da Antiga Aliança converteu-se na ceia pascal da Nova Aliança.

Quando o Senhor tomou o cálice deu graças; isto pode-nos levar a pensar nas orações de bênção, que contêm uma acção de graças ao Criador. Mas também podemos olhar para Cristo e ver que costumava dar graças quando antes de realizar um milagre levantava os olhos ao céu. Dá graças porque sabe que o Pai o escuta; Dá graças pela força divina de que é portador e porque vai manifestar aos olhos de todos a omnipotência do Criador. Dá graças pela obra da redenção que vai realizar e pela glorificação da Santíssima Trindade, na medida em que renova em pura beleza a sua imagem deformada em cada pessoa. Assim, toda a oferenda sacrificial de Cristo – na cruz, na missa e na glória eterna do céu -, pode-se considerar como uma única grande acção de graças – como eucaristia -: acção de graças pela criação, a redenção e a consumação. Cristo oferece-se a si mesmo em nome de toda a criação, cujo primeiro modelo é Ele, e, à qual desceu para renovar desde dentro e levar à consumação. Mas chama também a criação inteira para que, em união com Ele, ofereça ela mesma ao Criador a acção de graças que lhe é devida.

Mas reviver em nós os sentimentos de Jesus é também acompanhá-Lo nos seus íntimos momentos de oração, quando abre confiadamente o seu coração ao Pai. Muitos são os relatos evangélicos que nos falam dos momentos de oração solitária com o Pai. Vamos considerar aquele do Jardim das Oliveiras em que se prepara para subir ao Gólgota.

O que se passa nessa hora a mais dura da sua vida, em clama ao Pai é nos oferecido em poucas palavras. Palavras que chegam até nós como estrelas que nos guiam nas nossas horas de Getsêmani: «Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua.» (Lc 22, 42). São como um relâmpago que por um momento nos dão luz sobre a vida íntima de Jesus, o mistério insondável do seu ser humano e divino e o seu diálogo com o Pai. Sem dúvida que este diálogo nunca foi interrompido ao longo da sua vida. Cristo orava intimamente, não apenas quando se afastava da multidão, mas também quando se encontrava entre as pessoas. E uma vez permitiu-nos olhar longa e profundamente o segredo desse diálogo íntimo. Foi pouco antes da hora do Getsêmani, no final da última ceia em que nós reconhecemos o nascimento da Igreja: «Tendo amado os seus, amou-os até ao fim» (Jo 13,1). Sabia que era a última reunião e queria dar-lhes tudo o que estava nas suas mãos. Tinha que conter-se para não dizer mais, pois sabia que não o compreenderiam e quem sequer este pouco que tinham recebido podiam compreender. Tinha que vir o Espírito da verdade para lhes abrir os olhos. E depois de lhes ter dito tudo efeito tudo o que era possível, levantou os olhos ao céu e falou diante deles ao Pai» (Jo 17). Nós chamamos a estas palavras a oração sacerdotal de Jesus a que nos revela o mistério da sua vida interior. A que nos revela os sentimentos mais íntimos de Jesus, a mutua presença das pessoas divinas e a habitação de Deus na alma.

Cristo é a força de Deus e a sabedoria de Deus. Esta é uma mensagem muito simples! Cristo é força de Deus e a morte de Cruz é o meio de salvação escolhido pela infinita sabedoria… Esta força salvadora da Cruz passou à palavra da Cruz e através desta palavra comunica-se a todos os que a recebem.

Acompanhar a Cristo de coração e reviver em nós os seus sentimentos, acolhê-Lo na nossa interioridade é fazer a experiencia da sua Páscoa de Amor na nossa vida. Que o nosso olhar, o nosso coração e o nosso amar se centrem em Cristo e se deixem cativar pela força e sabedoria da Cruz, que é vida divina para quantos a queiram abraçar.

Desejamos a todos uma vivência intensa e profunda deste mistério redentor de Cristo para que juntos cheguemos a ser testemunhas da Ressurreição!

Carmelitas Descalças do Carmelo de Cristo Redentor