Viver no Carmelo é viver no santuário

Mais íntimo da Igreja

 

A 14 de Outubro de 1933, a Doutora Edith Stein, entra no Carmelo de Colónia. Para trás ficou a oferta de ensino numa Universidade Americana e a dolorosa separação da mãe.

«Uma dezena de dias depois do meu regresso de Beuron, apresentou-se-me com força, na mente, esta ideia: ‘Não chegou já o momento de entrar no Carmelo? ‘ O que eu pensava desde há 12 anos, daquele famoso dia de 1921, quando a vida de santa Teresa me veio para às mãos, pondo fim á minha longa peregrinação na procura da verdadeira fé. No primeiro de Janeiro de 1922, no momento do meu baptismo, senti que não era mais que uma etapa, uma preparação para a minha entrada na Ordem do Carmelo…»

«No domingo do Bom Pastor, pela tarde, regressei à Igreja dizendo a mim mesma: que não sairia dali sem saber se tinha ou não chegado o momento de entrar no Carmelo. E quando o sacerdote, ao encerrar a festa do dia, deu a bênção do Santíssimo Sacramento, recebi interiormente o assentimento do Bom Pastor.» «Para mim era claro que o Senhor me tinha reservado no Carmelo qualquer coisa, qualquer coisa que eu não poderia encontrar em mais nenhum lugar».

Foi recebida pela comunidade como qualquer outra postulante. A maioria das Irmãs ignorava o seu passado e os seus escritos. Mas ela é consciente de no Carmelo ocupar o lugar que Deus lhe destinou na Igreja para se realizar plenamente: «Sempre me pareceu que o Senhor tinha reservado qualquer coisa para mim que só a poderia encontrar no Carmelo». A consciência da sua posição privilegiada na Igreja como carmelita leva-a a afirmar que: «Viver no Carmelo é viver no santuário mais íntimo da Igreja».

O desejo de corresponder totalmente à sua vocação leva-a a questionar-se a si mesma: O que é a vida consagrada? O que é uma carmelita?

À primeira pergunta responde: «Na união com o Senhor também tu te tornas omnipotente, estando ao Seu lado. Não podes oferecer a tua ajuda apenas num lugar, a assistência dum médico, a ajuda de uma enfermeira ou de um sacerdote. Na força da cruz podes estar presente em todas as frentes, em todos os lugares de dor». Estar em meditação diante de Deus, seja interiormente ou exteriormente, constitui a ocupação principal dos seus membros. Este recolhimento não encontra em si o seu fim; mas é súplica, louvor e compaixão pela miséria da Igreja e do mundo.

À segunda ela responde desde a sede de Deus por cada ser humano, partindo aquilo que é visível aos nossos olhos. Na realidade, os sinais exteriores, como a clausura, a austeridade, a pobreza… mais do que exprimir a vida de uma carmelita transcendem-na. O desejo fundamental de despojamento que invade a alma duma carmelita, manifesta a separação com o mundo visível, o gosto pelo deserto, mas não revela a presença escondida no coração do deserto.

Deus escava na alma sulcos imensos e até dolorosos para os saciar com a sua própria presença, com a abundância incompreensível do seu amor.

A um amigo que se mostra renitente em compreender as razões de uma vocação consagrada a Deus ela dirá que: «O melhor será que lhe conte algo da minha vida. Nós acreditamos que apraz a Deus escolher um pequeno número de pessoas, que devem participar mais intimamente na sua vida(…) Não sabemos como é feita a eleição. Em todo caso não é por dignidade ou mérito nosso, e com a graça da vocação não nos tornamos soberbos mas, pequenos e gratos. A nossa ocupação é amar e servir…

Deus não abandona o mundo que Ele mesmo criou e, sobretudo, porque ama tanto o ser humano, para nós é naturalmente impossível desprezar o mundo e o ser humano. Não o deixamos porque o consideramos sem valor, mas para estar livres para Deus. E, quando Deus quiser, devemos restabelecer novamente a ligação com as coisas que estão para além das nossas grades. Assim, para nós tem o mesmo valor se uma descasca batatas, limpa janelas ou escreve livros».

A sua experiência de Carmelo levá-la-á a concluir que: «Os muros dos nossos mosteiros reservam um espaço muito limitado. Quem dentro deles deseja elevar o edifício da santidade, deve escavar profundamente e construir em direcção ao alto: descer profundamente até à noite obscura do próprio Nada, para ser elevado até à luz solar do divino Amor e da divina Misericórdia».

«Só quem aprecia o seu lugar no coro diante do Tabernáculo mais do que toda a glória do mundo, pode viver no Carmelo e encontra, naturalmente, uma felicidade, como não pode oferecer nenhuma glória do mundo. O nosso horário garante-nos horas de diálogo a sós com o Senhor, e sobre elas se fundamenta a nossa vida. (…) Para as carmelitas, nas suas condições da vida quotidiana, não existe outra possibilidade de responder ao amor de Deus para além do cumprimento das suas obrigações diárias, até as mais pequenas, com fidelidade; como um pequeno sacrifício, que exige de um espírito vital a estruturação dos dias e de toda a vida, até nos seus detalhes mais pequenos, e isto levado com alegria dia a dia e ano após ano; apresentando ao Senhor todas as renúncias que exige a convivência constante com pessoa totalmente distintas, com um sorriso de amor; não deixando escapar nenhuma ocasião de servir os demais com amor. A tudo isso há que juntar, finalmente, o que o Senhor pede a cada alma como sacrifício pessoal.»

«Quem entra no Carmelo não deixou os seus, mais verdadeira e amplamente os possui, dado que a nossa vocação-profissão consiste no estar diante de Deus por todos».

A vida no Carmelo é um puro mistério de amor. Esta foi a sua grande descoberta: «A maior maravilha é que o espírito do Carmelo seja amor, e que este espírito esteja completamente vivo nesta casa».

 

Teresa Benedicta da Cruz
Judia convertida ao cristianismo
Mártir de Auschwitz