(OCDS) 4. É fácil iniciar o processo de Oração?

(IRMÃ) A primeira vez que me disseram que tinha passado o tempo de oração a dar voltas ao meu umbigo assustei-me porque era o mesmo que dizer eu não sabia fazer oração, que não tinha trabalhada a dimensão orante do meu ser e o mais grave de tudo é que denotava que não conhecia a Deus nem tinha capacidade para O escutar. Não foi fácil, no entanto com a fidelidade e a perseverança ao tempo de oração passei de estar centrada em mim, ao tirar água ao balde e por aí adiante até acolher a oração como água da chuva que cai do céu e empapa a terra fecundando-a e fazendo-a produzir a semente para o semeador e o pão para cada dia. Com isto aprendi que a oração é algo tão dinâmico como dinâmico é o bater do nosso coração e a nossa própria respiração. E que não há que estranhar se alguém nos disser: “hoje parece que não «fizeste oração» ou hoje parece que não te encontraste com Aquele que te ama”.

Temos que admitir que temos por diante um grande trabalho o de colaborar com o Espírito Santo na obra de recriação do nosso ser orante. Não temos de nos preocupar se fazemos ou não fazemos oração. Mas temos de levar muito a sério o desafio de cuidar e cultivar uma atitude orante perante a vida, isto é, o desafio de em cada dia estarmos com o Homem que nos diz tudo o que fizemos, ou tudo o que o nosso Pai espera que façamos. Este Homem também nos revela a vontade de Deus para nós, no hoje da nossa vida e isto é o amor com que o Pai nos quer amar. Cabe a cada um de nós acolher este amor e deixar-se amar.

(OCDS) 5. Irmã, como lhe fala Deus?

(IRMÃ) Vou descrever dois momentos diferentes do percurso orante que fiz, apenas para que cada um possa olhar para a dimensão orante do seu ser e não ter medo, nem se assustar se encontrar algum momento em que passou o tempo centrado em si mesmo e possa identificar tantos momentos em que a sua história concreta foi invadida pela presença daquele Homem que quer encher de luz as nossas vidas. O primeiro trata-se dum momento de descoberta de que Deus não deixa as dúvidas e inquietudes orantes sem resposta, mas responde segundo as circunstâncias do acontecer diário, não na oração. O segundo trata-se de como Deus converteu um momento de incapacidade orante em manifestação da Sua graça.

(OCDS) 6. Que conselhos dava a quem quiser iniciar o seu percurso orante?

(IRMÃ) Quando Deus nos dispõe para começarmos um caminho de oração o primeiro que nos sucede é termos de reconhecer e dizer a nós mesmos «eu não sei orar» e humildemente nos colocarmos diante de Jesus como o discípulo está diante do mestre. «Eu estava assim, diante d’Ele com a Sua Palavra tentando entender algo, perguntando e procurando escutar para obter respostas às minhas dúvidas, porém tudo era silêncio. Devo dizer-lhes que comecei a aprender a orar quando entrei na noite. Já veem, que o ambiente que me envolvia era de insegurança, de medo, de dúvida, incerteza… Na oração parecia-me que falava a Deus, mas Ele não acabava de me escutar. Na verdade, era eu que não Lhe dava muito tempo para que me respondesse…

Mas Ele cheio de compaixão e fidelidade não deixou de vir ao meu encontro com uma nova linguagem orante. Num dos dias quando terminou o tempo da oração e começavam os trabalhos diários, como que num repente, o Espírito Santo abriu os meus olhos para a realidade que estava a viver e despertou em mim a consciência de que aquela realidade era a resposta de Deus à minha oração. Comecei a ter a perceção de que Deus me falava através dos acontecimentos diários e comecei a olhar para cada tarefa que me era proposta, cada circunstância, cada acto de obediência que me era exigido, cada sacrifício, cada pessoa que vinha ao meu encontro como palavra de Deus que explicava a Palavra contida na Sagrada Escritura e que eu tinha rezado, mas não conseguia passar da materialidade das palavras. Deus começou a educar o meu olhar espiritual para a leitura da história diária e a ensinar-me que cada realidade é e está sustentada por uma palavra dita por Ele. Ele mesmo, por meio do seu Espírito, me foi ensinando a ler a vida e a estar à escuta. Oração e vida uniram-se e a vida passou a ser o espaço orante onde Deus se reza e me reza. Aquela Palavra divina que eu procurava meditar na oração mental encontrava a sua plena realização na vida.»

Este encontro com Cristo, na vida real de cada dia, de identifico-o com a realidade dos discípulos de Emaús. Jesus põe-se a caminho com eles e explica-lhes o sentido das Escrituras e dos acontecimentos da história ocorridos naqueles dias.

Naquela oração da manhã o tempo tinha voado e não acabava de encontrar uma Palavra de Deus que servisse de alimento para o meu dia. Estava indisposta comigo mesmo e isto tirava-me a liberdade de estar à escuta do Espírito e a docilidade para seguir as suas inspirações. Quando foi dado o sinal de que a hora de oração estava a chegar ao fim voltei a pedir ao Espírito Santo uma palavra que iluminasse as minhas trevas e preenchesse o meu vazio. Abri a Sagrada Escritura e encontrei-me diante do capítulo 4 de S. João, então comecei a ler para ver o que Jesus queria dizer à minha realidade concreta. À medida que ia lendo senti que Alguém fixava em mim o seu olhar e me olhava atentamente, levantei o olhar e olhei ao redor e não encontrei ninguém. Todos estavam recolhidos no momento de ação de graças pelo dom que Deus lhes tinha feito de si. Voltei a baixar o olhar e a continuar a leitura. Quando cheguei ao momento em que Jesus diz à Samaritana: «Dá-me de beber», o olhar tornou-se mais intenso. Era um olhar que parecia penetrar dentro e conhecer as feridas interiores provocadas pelos retalhos de vida dispersos e sem sentido em que a minha vida se tinha convertido. De novo procurei a pessoa que me olhava assim e não a encontrei. Apenas o Crucificado estava uns metros à minha frente. De novo baixei o olhar e continuei a leitura, quando cheguei ao versículo 29, o que diz que a mulher deixou o cântaro e correu à cidade anunciar: «Vinde ver um Homem que me disse tudo o que eu fiz», então iluminou-se-me o entendimento e percebi que Aquele olhar era do Homem que me estava a dizer o que eu tinha vivido. Deus estava-me a olhar e este olhar impregnava toda a minha vida dum sentido novo, curava-me da dispersão e da fatiga que as ruturas provocavam em mim, dava-me unidade interior e fortaleza.

O olhar de Deus que nos revela a nossa própria vida tinha-se convertido no amor com que Deus me tinha amado naquela oração da manhã. Tudo passou ficando apenas o efeito do olhar de Deus.

Depois da oração eu devia ir à faculdade de Bioética dar pistas de oração aos estudantes. Num instante vi-me como a samaritana a correr para anunciar. Mas era um correr sem correr, algo no meu interior parecia ‘fazer-me voar’. A força do Amor deixada pelo olhar de Deus impelia-me avançar. Quando cheguei não tinha outra palavra a dizer-lhes senão esta: ‘deixar-se olhar por Deus’. O único necessário é deixarmo-nos olhar/amar por Deus para que Ele nos diga tudo o que vivemos. Citei-lhes o Evangelho de João 4 e a experiência da samaritana, mas os seus rostos pareciam mais admirados com a força e o entusiasmo com que lhes falava do que com o que lhes dizia.

Quando a Luz do Olhar de Deus penetra a nossa vida e ilumina o nosso interior percebemo-nos levados pela Mão de Deus, sustentados pelo Seu Amor, unificados pela Sua presença e unidos a Ele, pela força do Seu Amor. A Luz do Olhar de Deus chega até nós na oração, pela fé, e é na fé que nos temos que deixar penetrar por ela, para que nos revele os segredos de Deus ocultos no mistério da nossa existência.