Outubro é o mês dedicado à celebração da Solenidade de Santa Madre Teresa de Jesus. Os leigos carmelitas pediram uma entrevista às Irmãs de Clausura do Carmelo de Cristo Redentor, com o objetivo de perceber como se vive o Carisma Teresiano, no seculo XXI.

Antes de iniciarmos a entrevista, os leigos carmelitas da comunidade de Aveiro, agradecem antecipadamente à Comunidade de Irmãs Carmelitas Descalças do Carmelo de Cristo Redentor, sediado em S. Bernardo – Aveiro, na pessoa da Irmã entrevistada, o vosso carinho em atender o nosso pedido, a vossa amabilidade, disponibilidade e testemunho.

Foi pensada uma entrevista com 15 perguntas, para honrar o dia da Solenidade de Santa Madre Teresa de Jesus.

(OCDS) 1. Como vivem as Irmãs Carmelitas Descalças o Carisma Teresiano, passados 438 anos da morte da sua fundadora, em 1582?

(IRMÃ) Cada Carmelita Descalça é filha e herdeira do legado espiritual do Carmelo Teresiano e isso faz com que tenha uma relação muito especial, única, pessoal e intransferível com Santa Teresa de Jesus. Uma relação que com o tempo se vai aprofundando e alcançando níveis de intimidade mais intensos podendo chegar a uma grande comunhão espiritual.

(OCDS) 2. Ainda se lembra de como foi o meu primeiro encontro com Santa Teresa de Jesus?

(IRMÃ) Conheci Santa Teresa de Jesus quando estava no primeiro ano da Faculdade. Por esta altura veio-me ter às mãos o livro das Obras Completas da Santa. Ao abrir o livro deparei-me com o Decreto de proclamação de Teresa de Jesus como Doutora da Igreja, de Sua Santidade o Papa Paulo VI, datado de 27 de setembro de 1970. Diante disto a ousada ignorância da minha sabedoria fez-me exclamar: “Ela é doutora da Igreja, mas eu serei doutora no âmbito académico e doutora da Igreja”. Não sabia o que dizia, pois, ser considerada pela Igreja como doutora é algo que depende de Deus e da própria Igreja. Mas o que é facto é que parece que Santa Teresa não ficou ofendida pela minha afronta, nem pelo meu refinado orgulho, pelo contrário, agradou-se do meu ousado desvaneio e desde o céu decidiu ela mesma fazer-me participar da sabedoria que Deus lhe concedeu, tomar-me por sua discípula e trazer-me ao Carmelo, para ser sua filha.

Depois deste episódio nunca mais peguei no livro, nem me lembrei das palavras que tinha dito. Porém passados alguns anos a Santa fez-me trocar a sabedoria dos livros pela sabedoria do Livro Vivo que é Cristo. Era o tempo de fazer opções e conscientemente renunciei às brilhantes notas e à promissora carreira para vir ao Carmelo, com a certeza de que uma só coisa era necessária: como Maria permanecer aos pés do Mestre a escutá-lO, a deixar-me amar por Ele para como Ele conhecer e fazer em tudo a vontade do Pai.

Ao chegar ao Carmelo senti-me amada por Teresa desde a empatia pela oração, senti-me plenamente acolhida pela Santa pelo seu modo de entender e viver a oração, pelo seu ministério orante. Era como se entre nós houvesse uma cumplicidade íntima e profunda que nos fazia ser uma, porque comungávamos do mistério de Deus da mesma forma: «Tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama». A tal ponto estávamos unidas em Deus, que me parecia ser possível penetrar todos os mistérios das graças místicas vividas por ela, pela fé, ficando ‘desnudamente’ apenas com a verdade da fé do mistério e deixando-se amar por ela.

Um facto curioso que só descobri depois de estar no Carmelo e que considero um sinal da presença de Santa Teresa de Jesus na vida da minha família é que: precisamente naquela manhã de 27 de Setembro de 1970, enquanto o Papa Paulo VI declarava Santa Teresa Doutora da Igreja e Mãe dos Espirituais, na Igreja duma pequena vila os meus pais celebravam o seu matrimónio. Acho que, naquela manhã, Deus abençoou o matrimónio dos meus pais, através da Santa Madre, concedendo-lhes uma filha carmelita. Acho que Santa Teresa já me conhecia desde a eternidade, ainda que no tempo só a conhecesse aos 18 anos.

(OCDS) 3. Como define a sua experiência de Oração?

(IRMÃ) Quero que tenham presente a definição de oração da Santa Teresa de Jesus: «estar muitas vezes a sós tratando de amizade com quem sabemos que nos ama» e vejam se o convite que a samaritana nos faz não é o mesmo que nos faz Santa Teresa:

«Vinde Ver um homem que me disse tudo o que eu fiz».

Temos um ver que é um estar, porque para veres a Cristo com o coração o teu coração tem que estar em Cristo. Ver na dimensão bíblica significa possuir e possuir exige que primeiro Cristo tome posse de ti, que Cristo esteja em ti. Ver/Estar com um homem – não com muitas pessoas, mas apenas com uma. Uma que me “diga”, que me revele o sentido da minha própria existência. Revelar-nos o sentido da nossa existência, situar-nos no horizonte da história amorosa de salvação que Deus faz com o Seu povo, não é tarefa que deixemos nas mãos de qualquer um. Pelo contrário para que alguém nos diga o sentido da nossa vida precisa de conhecer o nosso coração por dentro, e este tem que ser um conhecimento amoroso, alguém que nos conheça amando-nos, isto é, dizendo-nos tudo o que fizemos. O amor para ser amor verdadeiro e autêntico tem que nos revelar o sentido salvífico da nossa existência, a presença de Deus a agir em nós, senão não podemos afirmar que sabemos que nos ama, que saboreamos o seu amor.

Com isto quero dizer que quando vamos à oração poderíamos dizer: “Vou ver um homem que me diz tudo o que eu fiz” ou “vou estar com um homem que transfigura – e com esta palavra quero dizer enche de luz – a minha vida”.

Agora gostaria que fixássemos o nosso olhar num elemento que é essencial: «um homem». A Samaritana afirma a humanidade de Cristo. Um homem entra na sua história real e concreta e diz-lhe aquilo que ela procurava esconder até de si mesma, mas situando-o num novo horizonte. Não nos podemos esquecer que é com um Homem real e concreto que nós nos encontramos na oração. Um Homem que desde a Sua história entra na minha história. Um Homem que desde a Sua vida entra na minha vida e desde a Sua Humanidade enche de luz a minha existência com a Sua Presença, situa-me num novo horizonte.

E porque sublinho eu esta realidade? Porque a presença de Cristo vamos encontrá-la sempre, sempre, mas sempre, no concreto da vida. E encontramos um Cristo Homem que nos faz ver a luz que a realidade contem. Um conhecido Filólogo da atualidade, num dos seus textos, usa uma expressão repleta de beleza para manifestar esta realidade: «Olhos de Páscoa». Olhos de passagem do exterior para a verdade autêntica e profunda, passagem para o interior. Aquilo que só este Homem, que se fez nossa páscoa, pode revelar ao homem que somos, cada um de nós.