Surpreendeu-me a perspectiva da ecologia integral da Carta Encíclica do Papa Francisco – “Laudato Si” e surpreendeu-me porque me fez recuar no tempo e recordar o momento em que na cadeira de antropologia descobri a teoria de Theilhard Chardin acerca do movimento do universo e a sua concepção de homem. O núcleo da teologia deste jesuíta foi definido pelo seu encontro com a mística desenvolvida por S. Paulo e estruturada em torno do “ser em Cristo”. A plenitude do momento final em que Cristo será tudo em todos. Tudo está em movimento para a sua plenitude e a plenitude de tudo é Cristo.

Na minha experiencia de Cristo e na minha simples linguagem não tinha uma teoria do movimento do universo elaborada nem muito menos uma visão do homem estruturada, mas experimentava que o amor com que Deus me amava produzia em mim um movimento até à plenitude do meu ser. Um movimento que era interior mas que estava em harmonia com o exterior. O Amor com que Deus me amava não se reduzia ao senti-lo dentro de mim a transformar o meu ser, mas abria-se às circunstâncias que me rodeavam e ao próprio meio ambiente. Tudo estava imbuído deste movimento de vida que o próprio amor de Deus produz e com o qual sustenta todas as coisas. Talvez por isso me era fácil ter a percepção da realidade de que “n’Ele somos, nos movemos e existimos”.

Ao deixar-me amar por Deus, a luz da fé fazia-me ver que Deus Pai me configurava com Cristo, isto é, me fazia chegar à minha identidade última, que é a de cada um de nós, ‘ser Cristo’, filho de Deus. Neste contexto chamei ao acto de me deixar amar por Deus-Pai, recriação. Deus ao amar-nos recria-nos, porque “Ele destinou-nos para sermos conformes à imagem de seu Filho, de modo que Ele seja o primeiro de muitos irmãos” (Rm 8). E porque Ele nos destinou também nos chamou, nos justificou e nos glorificou. Este é o movimento próprio da acção de Deus – levar tudo o que cria à plenitude. À minha experiencia chamei de ‘nova encarnação’ entendida como momento em que Deus-Pai vai criando em nós o seu Filho Jesus Cristo, porque ao olhar-nos o que Ele vê em cada um de nós é Cristo, o Seu Filho muito amado, porque Cristo deu a vida por nós e valemos o preço do Seu Sangue.

Isto situa-nos diante de Deus e de nós mesmos, da vida e do universo, da criação e de todas as criaturas de forma completamente nova. Por um lado, tudo está em contínua re-criação, isto é, tudo é sustentado pelo amor de Deus, que a tudo conduz para a plenitude da sua existência. Temos de nos manter na expectativa esperançosa e feliz da acção de Deus – “Eis que faço novas todas as coisas”. Por outro lado, é o próprio Deus que se diz nas coisas e por isso é preciso aprender o caracter sagrado da linguagem divina presente em cada coisa. Temos de aprender o alfabeto de Deus para fazer a leitura da sua presença em todas as coisas.

Tudo é uma forma de Deus se dizer, nós é que temos de descobrir o como da presença de Deus em todas as coisas. Para mim este é o desafio mais sublime que é feito ao ser humano: viver na presença de Deus, reconhecendo os reflexos da Sua presença em todas as coisas. É um desafio à purificação e ao crescimento da nossa fé.

Ao falar do ‘Cuidado da Casa comum’ e de ‘Ecologia integral’ partimos do horizonte que é o sonho de Deus: “Cristo tudo em todos”. O que verdadeiramente está em jogo não é um tema que devemos reflectir e trabalhar. O que está em jogo é o futuro das relações homem – natureza – Deus, ou seja, o futuro da vida sobre a terra e do próprio conceito de Deus, como no-lo revelou Jesus: Deus-Pai, autor da vida, Criador e Salvador.

Vamos deixar-nos guiar pelas sábias palavras do Papa Francisco na sua Encíclica Laudato Si e procurar despertar para a beleza de Deus escondida em nós, no que nos rodeia e no universo inteiro.

São Francisco, fiel à Sagra­da Escritura, propõe-nos reconhecer a natureza como um livro esplêndido onde Deus nos fala e transmite algo da sua beleza e bondade: « Na grandeza e na beleza das criaturas, contempla-se, por analogia, o seu Criador » (Sab 13, 5) e « o que é invisível n’Ele – o seu eterno poder e divindade – tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras » (Rm 1, 20). Por isso, Francisco pedia que, no convento, se deixasse sempre uma parte do horto por cultivar para aí crescerem as ervas silvestres, a fim de que, quem as admirasse, pudesse elevar o seu pensamento a Deus, autor de tanta beleza.21 O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mis­tério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor. ( LS 12)

As narrações da criação no livro do Génesis contêm, na sua linguagem simbólica e narrativa, ensinamentos profundos sobre a existência hu­mana e a sua realidade histórica. Estas narrações sugerem que a existência humana se baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, estas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas tam­bém dentro de nós. Esta ruptura é o pecado. A harmonia entre o Criador, a humanidade e toda a criação foi destruída por termos pretendido ocu­par o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas. (LS 66)

« Cada criatura possui a sua bon­dade e perfeição próprias. (…) As diferentes cria­turas, queridas pelo seu próprio ser, reflectem, cada qual a seu modo, uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus. É por isso que o homem deve respeitar a bondade própria de cada criatura, para evitar o uso desordenado das coisas ».43  (LS 69)

Os Salmos convidam, frequentemente, o ser humano a louvar a Deus criador: « Estendeu a terra sobre as águas, porque o seu amor é eterno » (Sl 136/135, 6). E convidam também as outras criaturas a louvá-Lo: « Louvai-O, sol e lua; lou­vai-O, estrelas luminosas! Louvai-O, alturas dos céus e águas que estais acima dos céus! Louvem todos o nome do Senhor, porque Ele deu uma ordem e tudo foi criado » (Sl 148, 3-5). Existimos não só pelo poder de Deus, mas também na sua presença e companhia. Por isso O adoramos. (LS 72)

Na Bíblia, o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo, e estes dois mo­dos de agir divino estão íntima e inseparavelmente ligados: « Ah! Senhor Deus, foste Tu que fizeste o céu e a terra com o teu grande poder e o teu braço estendido! Para Ti, nada é impossível! (…) Tu fizes­te sair do Egipto o teu povo, Israel, com prodígios e milagres » (Jr 32, 17.21). « O Senhor é um Deus eterno, que criou os confins da terra. Não se cansa nem perde as forças. É insondável a sua sabedoria. Ele dá forças ao cansado e enche de vigor o fraco » (Is 40, 28b-29). (LS 76)

Dizer « criação » é mais do que dizer natureza, porque tem a ver com um projecto do amor de Deus, onde cada criatura tem um valor e um significado. A natu­reza entende-se habitualmente como um sistema que se analisa, compreende e gere, mas a criação só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma reali­dade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal. (LS 76)

Deus, que deseja actuar con­nosco e contar com a nossa cooperação, é capaz também de tirar algo de bom dos males que pra­ticamos, porque « o Espírito Santo possui uma inventiva infinita, própria da mente divina, que sabe prover a desfazer os nós das vicissitudes humanas mais complexas e impenetráveis ».48 De certa maneira, quis limitar-Se a Si mesmo, crian­do um mundo necessitado de desenvolvimento, onde muitas coisas que consideramos males, pe­rigos ou fontes de sofrimento, na realidade fa­zem parte das dores de parto que nos estimulam a colaborar com o Criador.49 Ele está presente no mais íntimo de cada coisa sem condicionar a au­tonomia da sua criatura, e isto dá lugar também à legítima autonomia das realidades terrenas.50 Esta presença divina, que garante a permanência e o desenvolvimento de cada ser, « é a continuação da acção criadora ».51 O Espírito de Deus encheu o universo de potencialidades que permitem que, do próprio seio das coisas, possa brotar sempre algo de novo: « A natureza nada mais é do que a razão de certa arte – concretamente a arte divina – inscrita nas coisas, pela qual as próprias coisas se movem para um fim determinado. (LS 80).

A meta do caminho do universo situa-se na plenitude de Deus, que já foi alcançada por Cristo ressuscitado, fulcro da maturação uni­versal.53 E assim juntamos mais um argumento para rejeitar todo e qualquer domínio despótico e irresponsável do ser humano sobre as outras criaturas. O fim último das restantes criaturas não somos nós. Mas todas avançam, juntamente connosco e através de nós, para a meta comum, que é Deus, numa plenitude transcendente onde Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina. Com efeito, o ser humano, dotado de inteligência e amor e atraído pela plenitude de Cristo, é chama­do a reconduzir todas as criaturas ao seu Criador.

(LS 83)

Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo para recuperar a harmonia serena com a criação, reflectir sobre o nosso estilo de vida e os nossos ideais, contemplar o Criador, que vive entre nós e naquilo que nos rodeia e cuja pre­sença « não precisa de ser criada, mas descoberta, desvendada ». (LS 225)

Falamos aqui duma atitude do coração, que vive tudo com serena atenção, que sabe man­ter-se plenamente presente diante duma pessoa sem estar a pensar no que virá depois, que se entrega a cada momento como um dom divino que se deve viver em plenitude. Jesus ensinou­-nos esta atitude, quando nos convidava a olhar os lírios do campo e as aves do céu, ou quan­do, na presença dum homem inquieto, « fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele » (Mc 10, 21). De certeza que Ele estava plenamente presente diante de cada ser humano e de cada criatura, mostrando-nos assim um caminho para superar a ansiedade doentia que nos torna superficiais, agressivos e consumistas desenfreados. (LS 226)

O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a pôr em prática o pequeno cami­nho do amor, a não perder a oportunidade duma palavra gentil, dum sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quoti­dianos, pelos quais quebramos a lógica da violên­cia, da exploração, do egoísmo. (LS 230)

O universo desenvolve-se em Deus, que o preenche completamente. E, portanto, há um mistério a contemplar numa folha, numa vere­da, no orvalho, no rosto do pobre.159 O ideal não é só passar da exterioridade à interioridade para descobrir a acção de Deus na alma, mas também chegar a encontrá-Lo em todas as coisas, como ensinava São Boaventura: «A contemplação é tan­to mais elevada quanto mais o homem sente em si mesmo o efeito da graça divina ou quanto mais sabe reconhecer Deus nas outras criaturas ».  (LS 233)

São João da Cruz ensinava que tudo o que há de bom nas coisas e experiências do mundo « encontra-se eminentemente em Deus de ma­neira infinita ou, melhor, Ele é cada uma destas grandezas que se pregam ».161 E isto, não porque as coisas limitadas do mundo sejam realmente divinas, mas porque o místico experimenta a li­gação íntima que há entre Deus e todos os seres vivos e, deste modo, «sente que Deus é para ele todas as coisas ». Quando admira a grandeza duma montanha, não pode separar isto de Deus, e percebe que tal admiração interior que ele vive, deve finalizar no Senhor: «As montanhas têm cumes, são altas, imponentes, belas, graciosas, floridas e perfumadas. Como estas montanhas, é o meu Amado para mim. Os vales solitários são tranquilos, amenos, frescos, sombreados, ricos de doces águas. Pela variedade das suas árvores e pelo canto suave das aves, oferecem grande di­vertimento e encanto aos sentidos e, na sua so­lidão e silêncio, dão refrigério e repouso: como estes vales, é o meu Amado para mim ». ( LS 234)

Rezemos com o Papa Francisco:

Oração cristã com a criação

Oração cristã com a criação
Nós Vos louvamos, Pai,
com todas as vossas criaturas,
que saíram da vossa mão poderosa.
São vossas e estão repletas da vossa presença
e da vossa ternura.
Louvado sejais!
Filho de Deus, Jesus,
por Vós foram criadas todas as coisas.
Fostes formado no seio materno de Maria,
fizestes-Vos parte desta terra,
e contemplastes este mundo
com olhos humanos.
Hoje estais vivo em cada criatura
com a vossa glória de ressuscitado.
Louvado sejais!

Espírito Santo, que, com a vossa luz,
guiais este mundo para o amor do Pai
e acompanhais o gemido da criação,
Vós viveis também nos nossos corações
a fim de nos impelir para o bem.
Louvado sejais!

Senhor Deus, Uno e Trino,
comunidade estupenda de amor infinito,
ensinai-nos a contemplar-Vos
na beleza do universo,
onde tudo nos fala de Vós.
Despertai o nosso louvor e a nossa gratidão
por cada ser que criastes.
Dai-nos a graça de nos sentirmos
intimamente unidos
a tudo o que existe.

Deus de amor,
mostrai-nos o nosso lugar neste mundo
como instrumentos do vosso carinho
por todos os seres desta terra,
porque nem um deles sequer
é esquecido por Vós.

Iluminai os donos do poder e do dinheiro
para que não caiam no pecado da indiferença,
amem o bem comum, promovam os fracos,
e cuidem deste mundo que habitamos.
Os pobres e a terra estão bradando:
Senhor, tomai-nos
sob o vosso poder e a vossa luz,
para proteger cada vida,
para preparar um futuro melhor,
para que venha o vosso Reino
de justiça, paz, amor e beleza.
Louvado sejais! Amen.