Poucos dias depois da entrada no Carmelo, nosso Senhor manifesta-se a Teresa dos Andes na sua agonia e ela vê-o durante três dias moribundo. Referindo-se a esta visão dirá: «Tudo se me torna amargo porque não encontro gosto em mais nada senão em acompanhar Nosso Senhor. Mas vejo que é mais perfeito fazer tudo sem demonstrar exteriormente nenhuma pena. Não sei como agradecer a Nosso Senhor que me faça participante dos seus sofrimentos e encontre consolo em mim, miserável pecadora».

Teresa sabe que o melhor sofrimento é o sofrimento que não é escolhido, não é feito à medida, mas acolhido e aceite segundo o desígnio de Deus, onde aquele que ama a Deus tem de enquadrar a realidade de cada dia. Nem sempre é fácil fazer este ajuste entre a vida de cada dia e a fé, mas este é o desafio que nos é feito. Teresa diz-nos:

«Existem momentos em que se sofre. Mas sofrendo é como se goza. Sobretudo quando é Jesus que nos crucifica, nos despreza, então sentimo-nos felizes por sermos um joguete de amor. Tu compreendes demasiado bem a linguagem da cruz; não preciso de te dizer que a ames, que é nela onde se realiza a transformação da alma em amor. Mas não penses que sofro, pensa que desejo sofrer muito mais. O melhor é amar a vontade de Deus. Aí é onde melhor encontramos a cruz. Na vontade de Deus esta árvore bendita cresce rectamente, sem impedimento, pois é não é escolha nossa, nem da nossa parte existe alguma satisfação ou gozo. Sentes em ti esse amor pela vontade divina? Procura senti-lo».

Escolhida como vítima

A palavra “vítima” em linguagem do Novo Testamento significa Jesus, sacrificado na cruz, a vítima verdadeira que Deus aceita. Ele é ao mesmo tempo, o sacerdote que se oferece a si mesmo. Esta é a leitura que a Carta aos Hebreus faz da morte de Jesus, o enviado do Pai.

Deus escolhe Teresa como vítima: «À noite, uma hora com Jesus. Falamos intimamente. Mostrou-me a sua grandeza e o meu nada e disse-me que me tinha escolhido para vítima. Que subisse com Ele ao Calvário».

Outra dimensão desta escolha de Jesus é a da união com Ele como “hóstia”: vítima imolada e hóstia eucarística de pão formado por muitos grãos moídos. “Ser triturado” em pedacinhos como Ele. É Jesus que vai dizer a Teresa como ser triturado na realidade concreta de cada dia.

«Nosso Senhor na oração manifestou-me como tinha sido triturado por nós e se tinha convertido em hóstia. Disse-me que para ser hóstia era necessário morrer a mim mesma. Uma hóstia deve crucificar o seu pensamento, rejeitar tudo aquilo que não seja Deus. Ter sempre o pensamento ancorado nele. Os desejos dirigidos à glória de Deus, à santidade. Uma hóstia não tem vontade própria, onde queiram a podem levar. Uma hóstia não vê, não ouve, não se comunica exteriormente mas interiormente».

Teresa vai dando um sentido novo à sua imolação, como cireneu do seu Jesus e em resposta aos seus apelos:

Para o bem espiritual das pessoas

«Nosso Senhor disse-me que me abandonasse totalmente a Ele, que atraísse muitas almas ao abandono total de si mesmas. Ofereci-me como vítima para que manifestasse às almas o seu infinito amor. Disse-me que fizesse tudo unida a Ele».

Para expiar as ofensas

«Nosso Senhor pediu-me que me oferecesse como vítima para expiar os abandonos e ingratidões que sofre no sacrário. Disse-me que faria sofrer desprezos, ingratidões, humilhações, securas; enfim que sofreria. É só esse o meu desejo.»

Ela é consciente da sua vocação de “hóstia” e da mesma forma que Jesus-Hóstia é oferecido no sacrifício do altar ela também quer ser oferecida pelas mãos do sacerdote:

«Peço-lhe que na próxima Sexta-feira Santa, se não for pedir muito, me ofereça a Nosso Senhor para sempre, pelas suas mãos de sacerdote. Deus não recusará esta oferta total de todo o meu ser para ser despedaçada e martirizada por seu amor. Que eu seja toda dele e para sempre».

«Volto a repetir: Deus lhe pague por todas as suas orações, sobretudo pela grande bondade que tem ao recordar-me na Consagração. Asseguro-lhe que me deixou muito feliz, porque tinha ansias de que um sacerdote me oferecesse e me banhasse nesse sangue divino».

São tantos os desejos de Santa Teresa dos Andes de ser oferecida a Deus como ‘hóstia santa’ que acorre à Mãe de Jesus, a Vítima por excelência, que estava ao pé da Cruz, no momento único, síntese de todos os sacrifícios da história.

Recorre à Virgem Maria

E faz este pedido à Virgem Maria num momento de verdadeira dor. A sua oferta não era só de palavras ou desejos, era uma realidade concreta e existencial, verdadeiramente “mortal”, de crucifixão dolorosa:

«Morro, sinto-me morrer. Meu Jesus, dou-me a Ti, ofereço-Te a minha vida. Minha Mãe, oferece-me como hóstia. Ontem, já não podia suportar mais a dor no peito. Não podia respirar e a dor tirava-me todas as forças deixando um cansaço que parecia insuportável.»

«Com a Santíssima Virgem combinei que seja o meu Sacerdote, que me ofereça a cada momento pelos pecadores e sacerdotes, mas banhada com o Sangue do Coração de Jesus. Vivamos dentro desse Coração para nos unirmos em silêncio às suas adorações, aniquilamentos e reparações. Que seja Ele a nossa imensa solidão, onde vivamos isoladas do mundo que nos rodeia. Com Ele louvemos a Santíssima Trindade».

Teresa de Jesus dos Andes