É justo que as primeiras palavras do Livro do Cântico dos Cânticos ressoem nos lábios de Maria: «Beije-me com os beijos da sua boca».

Na verdade, o que é o nascimento duma criança senão um beijo de amor? O beijo de amor de duas criaturas, que chamamos de pai e mãe, sob o olhar de Deus e com a sua bênção, de certo modo converte-se em carne, transforma-se numa nova criatura, que perpetua o amor fiel. Contudo a pequenina criatura por mais bonita que seja aos olhos dos pais, necessita de ser revestida da veste branca da graça, para alcançar a sua verdadeira beleza.

Com a ‘pequena Maria’, a Virgem Santíssima, não foi assim. Ela é imaculada desde o primeiro instante da sua concepção. Nasce para a vida com todos os fulgores da graça de Deus, com todos os encantos de uma natureza humana que conservou a plena beleza da primeira criação. Além disso tem a singular beleza de ter sido escolhida para Mãe do Filho de Deus.

Tem todas as razões para dizer de si mesma: «Sou morena, mas formosa» (Ct 1,5). É morena porque exteriormente é como qualquer criatura, mas é ‘a cheia de graça’. Ela mesma o dirá: «Não olheis a que seja morena, é que me queimou o sol». Ela é morena porque o sol, que mora no seu interior, com a luz intensamente viva e o calor intensamente ardoroso, a escureceu.

O Próprio Deus enamorado dela canta a sua beleza e exalta a sua morada ao dizer: «Que formosa és minha amada, que formosa és! Como são lindos os teus olhos de pomba.» (Ct 1,15) Também, hoje, o nosso coração canta, unido ao de Deus, a beleza do nascimento da Santíssima Virgem Maria: a qual com a sua humildade atraiu o olhar do Senhor, e, segundo as palavras do Anjo, concebeu o Salvador do mundo.

O nascimento de Maria Santíssima envolvido por um excesso de graça divina não é uma glória apenas para ela é também um gozo e uma alegria muito grandes para todos nós, porque o Senhor na sua infinita misericórdia deu-no-la como nossa Mãe.

E por isso neste dia estamos convidados a dizer-lhe: Nós nos alegramos e regozijamos contigo, ó Mãe, e, cantamos o teu amor. Desde o teu nascimento estamos chamados a receber de ti, Mãe de Deus e nossa Mãe, o leite puríssimo da graça que nos torna filhos de Deus. Já não estamos abandonados na nossa solidão aos desejos das nossas paixões e ao desvario dos nossos sentidos, mas entregamo-nos ao teu coração de Mãe e aí cheiramos e saboreamos o perfume da graça que é uma vida nova que nos eleva aos mais profundos e verdadeiros gozos de Deus.

Por isso hoje de alma em festa, porque na Natividade da Santíssima Virgem Maria celebramos já o nosso nascimento para a vida da graça, cantamos:
O Teu Nascimento, ó Virgem Mãe de Deus,
anunciou a alegria ao mundo inteiro.
Porque de ti nasceu o Sol da justiça, Cristo nosso Deus;
o qual destruindo a maldição
nos trouxe a bênção
e deu-nos a vida eterna.

Neste dia somos todos convidados a oferecer à Santíssima Virgem a memória agradecida do dia em que nascemos para a vida de Deus. O dia do nosso Baptismo. Com Maria meditemos com amor e gratidão as maravilhas que Deus em nós realizou nesse tão feliz dia.