(Jo 21, 1-14)

Quando começamos a andar na companhia de Jesus e nos vamos tornando seus amigos, damos conta de que amizade com Jesus nos vai mudando. Os nossos hábitos vão-se conformando com os de Jesus, a nossa forma de olhar para as pessoas e as coisas vai-se tornando mais luminosa, mais cheia da luz que vem do alto. A nossa forma de estar e de ser torna-se mais livre e mais cheia de paz e refletimos, como num espelho, de forma mais intensa a bondade do nosso Deus. Tornamo-nos ‘pessoas novas’, renovadas pelo amor com que Cristo nos ama. O antigo passou e mais do que ser manifestação de nós mesmos somos manifestação de Deus em nós, das maravilhas da presença de Deus na nossa vida. Deus está presente em nós e através de nós permanece no nosso mundo, na nossa família, e na nossa história. E através de nós e do amor com que nos ama quer renovar todas as coisas. O amor faz novas todas as coisas isto é o fruto do amor de Deus em Cristo Ressuscitado. Com a Ressurreição de Cristo somos testemunhas duma nova criação em graça e amor. Podemos chegar a ser testemunhas da nossa própria re-criação. Em Cristo Ressuscitado tudo é renovado, o que era antigo passou, e, somos convidados a conhecer todas as coisas, não segundo a carne, mas segundo a fé.     

Vamos ver o que aconteceu a Pedro e aos outros discípulos. Aparentemente Jesus tinha-os defraudado. Deixaram tudo para O seguir e Ele foi Crucificado, Morto e Sepultado… Eles esperavam que fosse Ele quem libertasse Israel e no entanto a Sua esperança foi vã. Voltaram ao antigo – à pesca. «Diz Pedro: ‘Vou pescar’. ‘Nós vamos contigo’ dizem os outros discípulos. Porém naquela noite não apanharam nada.» É ‘de noite’, os peixes estão mais à superfície e a pesca deveria ser mais fácil, mas não apanharam nada. Mas é também de noite na vida daqueles homens que voltaram ao antigo. Não perceberam que Jesus estava a fazer com eles um caminho, que estava a configurá-los com Ele, a renová-los ‘em espirito e verdade’, a recriá-los para o alto, para a direita do Pai. Não perceberam que Jesus estava a fazê-los participar da sua Ressurreição.

A vida, a nossa vida, é um caminho em que Jesus nos quer fazer participar da sua Ressurreição. O desejo de Jesus é dar-nos os frutos da sua Ressurreição e por isso Ele vem ao nosso encontro. Os frutos da ressurreição, a vida nova da graça e do amor, são os peixes que Jesus nos quer fazer pescar. Mas sem a presença do Ressuscitado, sem a confiança n’Ele, sem amizade com Ele não colhemos nada, voltamos ao antigo.

Passou a noite e Jesus está de pé na praia e fala-lhes. Todos os dias Jesus olha-nos e chama-nos para nos falar. Desde o nosso interior, Ele chama-nos para nos ensinar a conhecer a sua presença na nossa vida, chama-nos para nos ensinar a viver com Ele ao longo de todo o nosso dia, chama-nos para nos ensinar que não há nada que não possamos viver com Ele. Ele ensina-nos e fala-nos ao coração através da oração, da meditação, do encontro silencioso com Ele.

Jesus pergunta-lhes: «tendes alguma coisa de comer?» E com esta pergunta diz-nos a nós que sempre que vamos ao seu encontro temos que levar algo de nosso, algo pessoal. E até podemos levar a certeza de que não somos nem temos nada, mas Jesus espera o nosso nada. E Ele dir-nos-á o mesmo que os discípulos: “Lança a rede para a direita”. Ele que está à direita do Pai convida-nos a lançar a rede para a direita. E para nós a “direita” é começarmos cada dia desde de Deus, desde os valores sobrenaturais, desde o desejo mais profundo de agradar a Deus em tudo, de fazer em tudo a Sua vontade e trabalhar por seu amor com “reta consciência e coração puro”.  

Não temos que duvidar dos resultados, se assim agirmos, porque a abundância da graça encherá a nossa rede, a nossa vida, e tudo o que fizermos será cheio de Deus, porque será o poder a Deus agir em nós. Que maravilha quando Deus passa através da nossa vida!

Depois da rede cheia, Jesus diz-lhes: «Vinde comer». Quando chegam a terra veem umas brasas acesas com peixe em cima e pão. Como cuida de nós o nosso Jesus, com que amor, com que ternura! Enquanto procuramos viver desde o alto, desde os verdadeiros valores, Ele prepara para nós o alimento de que precisamos. Acende o lume que é a oração, porque só orando O podemos começar a ver com os olhos da fé, vemos o pecado de desfigura o nosso interior e determinamo-nos ao cumprimento da sua vontade, dos seus mandamentos e palavras e isto é o que alimenta verdadeiramente o fogo do amor.

No fogo do seu infinito amor Jesus dá-nos o seu Corpo e o seu Sangue, o Pão descido do céu para a vida do mundo, apto para sustentar a nossa debilidade, nutrir a nossa  humanidade e nos fortalecer na vontade de fazer o bem.

Mas Jesus tem um amor muito delicado para connosco. Para Ele não basta preparar-nos a comida, mas quer a nossa colaboração, por isso, antes de nos convidar para comer diz-nos: «trazei dos peixes que pescastes». Jesus sabe que os peixes dos discípulos são fruto do dom da Sua graça, porém actua como se fossem fruto do seu esforço e do seu trabalho, para lhes ensinar a eles e a nós que a graça divina dá à nossa fraqueza o poder de estarmos ao seu serviço, de O ajudarmos na construção do Reino.

Jesus quer que lhe ofereçamos os nossos trabalhos para uni-los ao seu dom, ao dom que nos faz de si, para nos unir a Si e com Ele e n’Ele sermos um só. O Ressuscitado chama-nos a uma comunhão de vida e de bens, de cansaços, de fadigas e sofrimentos, uma união de corações. Depois de Lhe darmos tudo fica-nos a glória comermos com Jesus, o coração cheio de tanta alegria por estarmos na Sua presença, que nem nos atrevemos a falar.

Ó Senhor Ressuscitado que bom e delicado és para connosco! Concede-nos a graça de começar cada dia contigo na oração, para arder no fogo do teu amor. A graça de fundir os nossos esforços e sentimos com os teus, para dar a todas as minhas acções a eficácia da tua graça. Ajuda-me a fazer tudo em união contigo e com a ajuda da Tua graça!

«Neste instante olho ao Ressuscitado.
Sou feliz e jamais deixarei de o ser,
Porque pertenço ao meu Deus.
Nele encontro a cada momento o meu céu
e um amor eterno e imutável.
Nada mais desejo que a Ele.
E a ninguém amo mais que a Ele.
e este amor vai crescendo na minha alma,
à medida que me vou introduzindo
No seu divino Coração de Amor.»

Santa Teresa de Jesus dos Andes