(Lc 24, 36 – 47)

Enquanto os discípulos de Emaús regressados ao Cenáculo contavam aos outros como Jesus lhes tinha aparecido no caminho, Jesus entra, coloca-se no meio deles e diz-lhes: «A paz esteja convosco. Sou Eu. Não temais.»

Jesus coloca-se no meio deles e diz-lhes: “Não temais. Sou Eu. A paz esteja convosco”. Ainda há pouco o viam no meio deles pregado na cruz, irreconhecível pelo sofrimento e agora entre o medo e a surpresa vêem-n’O diante deles Ressuscitado. Ali diante deles, Vivo, é natural que no coração e na consciência de cada um saltassem as últimas atitudes que tiveram para com Ele. Uns fugiram, outros não acreditam n’Ele, outros sentiram-se enganados, outros… Diante Dele cada um viu a sua verdade e reconheceu o quanto se fechou à palavra do Mestre. Neste ambiente de medo, de vergonha, de incredulidade as palavras que Jesus lhes dirige tornam-se muito doces: «Não temais. Sou Eu. A paz esteja convosco».

São estas mesmas palavras que Ele nos dirige quando se coloca no meio da nossa vida e nos faz reconhecer as nossas infidelidades, os nossos medos, as nossas desconfianças, as nossas dúvidas e abandonos. «Não temas. Sou Eu. A paz esteja contigo!» Quanto mais deixamos ressoar estas palavras dentro de nós, mais elas adquirem o peso exacto, isto é, reduzem-se ao essencial e ficamos centrados na presença do Crucificado/Ressuscitado: ‘Sou Eu’. Um ‘Sou Eu’  que de fundo dissipa todas as dúvidas acerca de quem é Aquele que nos fala, Ele dá testemunho de Si mesmo no nosso coração e murmura-nos suavemente: «Eu estive morto mas agora vivo para sempre e tenho as chaves da morte e do abismo». É como se Ele nos dissesse: «Eu estive na cruz por ti, porque te amo, morri para te dar a Minha Vida. Mas agora vivo para sempre, ninguém me tira a vida. «Eu sou o princípio e o fim, o Alfa e o Omega, o que Vive. E tenho a chave da morte e dos abismos.» A chave da morte e dos abismos é a vida eterna. Cristo Ressuscitado já não pode morrer, a morte já não tem domínio sobre Ele. Quando passamos o umbral da morte e começamos a viver a vida eterna que Cristo nos oferece, a vida divina que recebemos no Baptismo e que depois desenvolvemos, a fé e a graça fazem com que a morte e o pecado já não tenham poder sobre nós.

«Não foi por coisas corruptíveis como a prata ou o ouro que nós fomos resgatados da vã maneira de viver herdada dos nossos pais mas pelo sangue precioso do Cordeiro, sem defeito nem mancha.» Quando vemos com os olhos do coração o Ressuscitado com as chagas gloriosas diante de nós, sentimos atear-se o fogo divino no nosso interior, a suavidade do amor divino a consumir-nos, porque valemos o preço do Cordeiro Imolado por nosso amor.

Mas Jesus quer dissipar-nos todas as dúvidas, tal como fez com os seus discípulos, para nos dar mais uma prova da sua realidade e do seu amor e diz-nos: «Vede as minhas mãos e os meus pés». 

Quando Jesus se coloca no centro do nosso coração e nos diz: «vê as minhas mãos e os meus pés», Ele está nos a convidar a tocar as chagas abertas das suas mãos e dos seus pés. Destas chagas gloriosas brota a força vivificadora que nos cura e liberta. A mesma força que saiu d’Ele para aquela mulher que sofria dum fluxo de sangue há 12 anos e decidiu tocá-l’O, mesmo sem Ele saber. Agora Ele está dentro de nós, no centro do nosso coração, como ‘Cordeiro imolado no trono’, temos que recolher-nos diante d’Ele e na profundidade da nossa fé tocar as suas mãos e beijar os seus pés. Sentir a suavidade das suas mãos, mãos de bênção, mãos de carícia, mãos que curam os doentes, mãos que partem o seu Corpo e o seu Sangue, mãos que repartem a sua vida. Mãos que suportaram o peso do pecado e nas quais foram abertos “furos” donde jorra água viva, as chagas gloriosas. Quando nos determinamos na fé a tocar as mãos do Senhor, sentimo-nos tocados, abençoados, amados por Ele, senti-mos que Ele nos dá o Seu Corpo e o Seu Sangue, isto é a Sua vida.

Ver os seus pés é deixar-se alcançar por Ele, pelo Seu caminho, pela sua Verdade. Jesus percorreu um caminho longo para me encontrar, um caminho que foi assumir um corpo como o meu para que eu O pudesse encontrar, conhecer e seguir. O Caminho do Bom Pastor em busca das suas ovelhas, o caminho do Pai Bom que com alegria corre ao encontro do Filho para o abraçar.

Beijar os seus pés, sentir o calor e a força do que vem ao nosso encontro isso é deixar-se acolher por Ele, é deixar-se abraçar por Ele, é deixar-se comungar por Ele aceitando comungar o Seu Corpo e o Seu Sangue, a Sua vida, o Seu Amor.

Às vezes desviamos o caminho para não nos encontrarmos com Ele, não deixamos que Ele nos abrace e nos faça sentir a suavidade do Seu amor. O Senhor não desiste. Ele espera que paremos diante Dele e O olhemos, para nos dizer que quer mais de nós. Para nos dizer: ‘Toca-me e vê’, como estive na cruz por ti, e, por ti ressuscitei, transformando a morte em vida, o pecado em graça. Olhando as suas chagas, agora gloriosas, sentimos despertar, no nosso interior, a força do amor mais forte do que a morte.

Diante das palavras e das chagas gloriosas de Jesus os apóstolos já não têm medo, mas estão fora de si com tanta alegria e gozo. Para que entrem de novo na realidade Jesus diz-lhes: «Tendes algo para comer?» Eles dão-lhe do que têm: peixe assado e mel. Jesus come e dá-lhes o que sobra.

As grandes coisas repetem-se. Jesus manifesta-se aos discípulos de Emaús sentando-se com eles à mesa e partindo o pão, aqui Jesus confirma a verdade da sua aparição e robustece a fé dos seus amigos comendo com eles. Com os de Emaús come pão, no cenáculo come peixe, uma imagem de si próprio, peixe assado – ele mesmo abrasado em amor no lenho da cruz. Acompanha o peixe com mel, outra imagem cheia de beleza com que Ele se apresenta: sempre manso e humilde de coração, doce para com todos até para os que o pregaram na cruz, doce também para nós, que somos lentos em entregar-nos ao seu amor. Doce, Ele vem a nós repleto de doçura e mansidão para nos permanecer n’Ele.

Cada aparição de Jesus está repleta de ensinamentos para os seus apóstolos, mas também para nós. E é delicioso aprender com o ressuscitado, é aprender a olhar para a vida com luz divina. A uns e a outros Ele vai dizendo: «Era necessário que Cristo sofresse para entrar na sua glória» ou «Era necessário que Cristo sofresse e ressuscitasse de entre os mortos». Se na primeira Ele nos diz que o sofrimento nos dá um peso de glória, na segunda Ele diz-nos que era necessário que sofresse e ressuscitasse dos mortos, isto é, era necessário perdoar-nos os nossos pecados para nos fazer estar, junto de Si, à direita de Deus, isto é, nas mãos do Pai, totalmente entregues ao seu amor.

Oh meu Senhor, Ressuscitado por amor, que continuas a multiplicar as tuas aparições para confirmar a fé dos discípulos, dissipar os medos e as dúvidas, infundir serenidade, confiança no perdão e uma alegria divina nos corações, ajuda-me a ver a Tua presença na minha vida, a encontrar-me contigo e a acolher o teu amor que me vem das chagas gloriosas que encontro nas tuas mãos estendidas para me abraçar.

«Ele vem com uma Cruz,
E sobre ela está escrita apenas uma palavra
Que comove o meu coração
Até às suas fibras mais íntimas: “Amor”.
Ó, que belo está com a sua túnica de sangue!
Esse sangue vale para mim
Mais que as joias e os diamantes de toda a terra.

Jesus.
Como se enternece a minha alma ao pronunciar este nome santo!
Como me enche de uma alegria inexplicável!
Queria que a ti te acontecesse o mesmo.
Só esta palavra encerra tantas coisas:
Amor Infinito de um Deus Humanado,
Crucificado e Ressuscitado por nós…!
Neste momento, sinto o peso do seu Amor Infinito.
É tão bom para connosco,
Frágeis criaturas!

Oh! Quando temos a nossa esperança posta n’Ele
Nada temos que temer,
Porque Ele vence
Todos os obstáculos e dificuldades.
Que bom é o meu Jesus!
Eu amo-O.»

Santa Teresa de Jesus dos Andes