«Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.» Pilatos replicou-lhe: «Que é a verdade?» (Jo 18)

 Temos Jesus diante de Pilatos, e, Pilatos a tentar perceber quem é na verdade Aquele Homem que tem diante e si. Jesus diz-lhe que é rei, mas que a sua realeza consiste em dar testemunho da Verdade. Pilatos mostra-se desconcertado com tal resposta e pergunta: «O que é a Verdade?» Jesus mantem-se em silêncio. Porém, hoje vamos deixar que Paulo responda a Pilatos e a cada um de nós, que explique a cada um a missão da realeza de Jesus: «Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade».

 

«É Ele a imagem do Deus invisível,

o primogénito de toda a criatura;

16porque foi nele que todas as coisas foram criadas,

no céu e na terra,

as visíveis e as invisíveis,

todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele.

17Ele é anterior a todas as coisas

e todas elas subsistem nele.

18É Ele a cabeça do Corpo,

que é a Igreja.

É Ele o princípio,

o primogénito de entre os mortos,

para ser Ele o primeiro em tudo;

19porque foi nele que aprouve a Deus

fazer habitar toda a plenitude

20e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas,

pacificando pelo sangue da sua cruz,

tanto as que estão na terra

como as que estão no céu.» (Col 1, 3-23)

 

«Eu sou Rei»

Jesus é Rei por natureza: «Ele a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura; porque foi nele que todas as coisas foram criadas, no céu e na terra, as visíveis

e as invisíveis, todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele. Ele é anterior a todas as coisas e todas elas subsistem nele.» (Col 1, 15-17)

 

Levados pela mão de Deus que é o seu Espírito Santo, sentimos que estas palavras evocam outras, talvez mais nossas conhecidas: «No princípio era o Verbo e o Verbo era Deus e o Verbo estava em Deus. Tudo foi feito por Ele e sem Ele nada se fez…», do prólogo de S. João. E se continuarmos o caminho vemos que estas palavras já tinham sido preanunciadas nos salmos: «Pede-me e te darei as nações por herança e os confins da terra para teu domínio» Sl 2, 8 e Isaías exprime-o de forma muito bonita: «Foi-nos dado um Filho, que tem o poder sobre os ombros e será chamado Conselheiro admirável…, Príncipe da paz» (Is 9,6).

 

Jesus, Homem e Deus, é Rei e veio ao mundo para reinar, pois é o Senhor de todas as coisas. Mas como reconhecemos o seu domínio em todas as coisas? Como o experimentamos?

 

Se nos prendemos às realidades materiais, não somos senão como aqueles caminhantes que enveredam por caminhos lamacentos e deixam que os seus pés se atolem na lama e assim renunciam ao verdadeiro caminho que leva à morada do nosso Rei.

 

Se nos prendemos à beleza das pessoas, na sua simpatia, no prazer da sua presença e companhia, somos como o servo infiel que troca o administrador pelo Senhor e se alegra com o primeiro e deixa de lado aquele de quem lhe vem o verdadeiro bem.

 

Se nos prendemos a nós mesmos, convertemo-nos no centro da nossa vida, procurando as nossas seguranças, os nossos gostos, aquilo que é mais vantajoso para nós, aquilo que nos dá mais elogios, “somos os mais miseráveis de todos os homens” porque estamos a roubar ao nosso Rei a glória que só Ele merece.

 

«Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade». Esta é a realeza do nosso Rei e este é também o fundamento da nossa vida cristã. Reconhecer a Jesus como Rei é servi-l’O sobre todas as coisas, tê-l’O por luz e guia, como orientação de todos os nossos passos e dos nossos sentidos.

 

 

«Fostes comprados por grande preço»

 

Jesus é Rei pela redenção. Ainda mais surpreendente é o segundo motivo da realeza de Jesus. É Rei porque nos reconquistou com o sangue da sua Redenção: «4n’Ele temos a redenção, o perdão dos pecados» (Col 1,14).

 

Jesus reinou desde a Cruz. Desde a Cruz foi proclamado Rei em língua hebraica, grega e latina. E porque Ele é o Rei que tornou realidade a promessa, é Rei da verdade e da beleza, do poder e do direito. «Fostes comprados por grande preço. Não vos pertenceis a vós mesmos». (1Cor 6, 19-20)

 

A quem pertencemos? Paremos diante do nosso Rei pregado no madeiro da Cruz e deixemos que Ele nos diga: “Tu vales o preço da minha vida, o preço do meu sangue isso vales tu”. Contemplemos o nosso Rei, revestido com o Sangue da sua realeza. Fixemos o nosso olhar n’Ele, porque as provas da sua realeza estão sempre vivas na sua Paixão e na Divina Eucaristia. Com Santa Teresa digamos ao nosso Rei:

 

Não me move, meu Deus para querer-Te

O Céu, aos que Te querem, prometido,

Nem me move o inferno tão temido,

Para deixar, por isso de ofender-Te.

 

Moves-me Tu, Senhor, move-me ver-Te

Cravado numa cruz escarnecido;

Move-me o ver Teu Corpo tão ferido

No Sepulcro jazendo frio inerte.

 

Move-me o teu amor, e em tal maneira

Que, embora não houvesse céu, Te amara,

E não havendo inferno, Te temera.

Nada tens de me dar porque te queira,

Se o que espero de Ti não esperara,

O mesmo que Te quero te quisera.

 

«N’Ele temos a redenção, o perdão dos pecados», a quem pertencemos?

 

«Ele é a cabeça do seu Corpo que é a Igreja»

 

Paulo indica ainda um outro motivo da realeza de Jesus: é Rei da sua Igreja. «É Ele a cabeça do Corpo, que é a Igreja. É Ele o princípio, o primogénito de entre os mortos para ser Ele o primeiro em tudo; porque foi nele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude

e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz tanto as que estão na terra como as que estão no céu.»

 

Da beleza do mistério que nos envolve, somos convidados a ter presentes duas consequências práticas: Somos membros vivos do Corpo Místico de Cristo, cuja Cabeça é Cristo e como membros desse Corpo Místico de Cristo, formamos um único corpo.

 

Somos membros vivos do Corpo Místico de Cristo, cuja Cabeça é Cristo. Diante disto nenhuma delicadeza será excessiva e nenhum esforço de santidade exagerado para nos mostrarmos menos indignos da santidade desse Corpo em que Jesus nos uniu com os vínculos da graça e do amor. É o que Paulo tão energicamente nos diz: «a vós, que outrora andáveis afastados (…) agora Cristo reconciliou-vos no seu corpo de carne, pela sua morte, para vos apresentar santos, imaculados e irrepreensíveis diante dele» (Col 1, 21-22). Se não estamos decididos a isso, é porque não estamos unidos a Ele pela fé e a esperança: «desde que permaneçais sólidos e firmes na fé, sem vos deixardes afastar da esperança do Evangelho que ouvistes…» (Col 1,23)

 

Como membros vivos desse Corpo Místico, formamos um único corpo; o que significa que estamos chamados a amar-nos com o mesmo amor necessário por natureza com que se amam, ajudam e servem mutuamente os membros de um corpo: 19porque foi nele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude 20e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na terra como as que estão no céu.» (Col 1, 19-20)

 

Sermos canais de graça por onde circula a vida para todo o Corpo é a missão mais bela a que Deus nos chama na construção do Reino, na participação da realeza de Cristo. Depois de unidos a Ele pela graça e pelo amor, pela verdade e a beleza, pela justiça e pelo poder, não podemos senão trazer na nossa vida os sinais do nosso Rei: Um Rei encarnado verdadeiro Deus e verdadeiro Homem; Um Rei que nos amou e se entregou por nós; Um Rei que fez de nós Um Só unindo-nos a Si pela graça e o amor, convertendo-nos em membros vivos do Seu Corpo Místico.

 

Na alegria de sermos o Corpo Místico de Cristo e Cristo ser o nosso Rei, o Rei que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da Verdade, rezemos juntos:

 

Cristo, Filho Unigénito do Pai,

Seu esplendor, sua perfeita imagem,

Por Vós e para Vós tudo foi feiro,

Sois o centro da história e do universo.

 

Deus de Deus, Luz da Luz, Verbo Divino,

Triunfador da Morte e do Pecado,

Ao vosso nome todos se ajoelham

Nas alturas, na terra e nos abismos.

 

A Cruz é o vosso trono verdadeiro,

Morrendo conquistastes nossas almas,

Reinais na santidade e na justiça,

Reinais no amor, na paz e na verdade.

 

Rei dos séculos, Príncipe da Paz,

É vosso reino toda a Igreja santa,

Alimentai-nos com o vosso Corpo

E levai-nos ao Reino prometido.