O nosso Deus escrevia S. Paulo, é “um Fogo consumidor” (Hb 12, 29), isto é, um fogo de amor que destrói, que transforma em si próprio tudo o que toca. “As delícias do braseiro divino renovam-se no fundo de nós por uma actividade sem descanso, é incendio de amor numa complacência mútua e eterna. É uma renovação que se faz a cada momento no nó do Amor. Para certas almas … a morte mística, de que S. Paulo nos falava ontem, torna-se tão simples, tão suave! Pensam muito menos no trabalho de destruição e despojamento que lhes resta fazer, do que em afundarem-se no Braseiro do amor que nelas arde, e que não é senão o Espírito Santo, esse mesmo Amor que na Trindade é o laço do Pai e do seu Verbo. Elas entram n’Ele pela fé viva, e aí, simples, pacíficas, são elevadas por Ele acima das coisas, dos gostos sensíveis, na “treva sagrada” e transformadas na imagem divina. Vivem, segundo a expressão de S. João, em “comunhão” com as Três adoráveis Pessoas. A sua vida é comum e é isso a vida contemplativa.

“O reino de Deus está dentro de vós”. Pouco antes, Deus convidava-nos a “permanecer n’Ele”, a viver pela alma na sua herança de glória, e, agora, revela-nos que não temos necessidade de sair de nós para O encontrar: “O reino de Deus está no interior!” S. João da Cruz diz que é na substância da alma que Deus se dá a ela: a alma já está em Deus que é o seu centro mais profundo, mas não está no seu centro mais profundo pois pode ir mais longe. Como é o amor que une a alma a Deus, quanto mais intenso é este amor, mais profundamente ela entra em Deus e n’Ele se concentra. Quando possuir um único grau de amor está já no seu centro; mas quando este amor tiver atingido a perfeição, a alma terá penetrado no seu centro mais profundo. Aí será transformada a ponto de se tornar muito semelhante a Deus. A esta alma, que vive do interior, podem-se aplicar as palavras do Padre Lacordaire a santa Madalena: “Já não perguntas pelo Mestre a ninguém da terra, nem a ninguém do Céu, pois Ele é a tua alma e a tua alma é Ele”.

Isabel da Trindade