“Olhai para Ele e ficareis cheios de alegria” (Sl 34,6)

A maior alegria está em olhar para Ele. Ao fixar o nosso olhar n’Ele a primeira coisa que Ele nos diz é que Ele existe. Ele o Bem maior, a bondade plena, a Verdade Eterna, a Beleza infinita, o Uno Imutável que nos permite conhecer a unidade do Amor e a Trindade de Pessoas. E dirá S. João da Cruz:
O céu é meu e minha a terra;
minhas são as gentes,
os justos são meus e meus os pecadores,
os anjos são meus e a Mãe de Deus,
e todas as coisas são minhas;
e o próprio Deus é meu e para mim,
porque Cristo é meu e todo para mim.
Que pedes pois e buscas, alma minha?
Tudo isto é teu e tudo para ti.

A afirmação que Deus nos faz de Si mesmo está no próprio dom que Ele nos faz a cada instante de Si. Ao fixar o olhar n’Ele aprendemos a descobrir a sua presença em todas as coisas. Aprendemos a conhecer o Amor pelo qual todas as coisas subsistem, porque só quem ama conhece a Deus, e as coisas oferecem-se a nós como dom de Deus, como manifestação do seu amor por nós.

Quando o nosso olhar se ‘afina’ com o de Deus aprendemos a conhecer o próprio Deus desde a linguagem com que Ele se manifesta no que faz, aprendemos a conhecer o Seu mistério. Este conhecimento do entendimento é para nós fonte de alegria, porque em Deus tudo é nosso e para nós e o próprio Deus se faz nosso.

Deus existe, conhece-se e ama-se. É uno e é Trino: comunhão de amor. O Pai manifesta a Sua própria vida, o Seu Ser infinito no seu Verbo, o Seu Filho que é o Seu pensamento e a Sua glória. E o Pai e o Filho consumam-se na unidade dum mesmo amor, o Espírito Santo. O Espírito que procede deste abraço de amor e é expressão clara da sua alegria eterna e do seu infinito júbilo. O Pai, o Filho e o Espírito Santo amam-se com um amor sem medida e por isso são felizes, infinitamente felizes, eternamente felizes, imutavelmente felizes… Esta alegria está aqui consumir-se na unidade do mesmo amor – que significa deixar que Deus se diga em nós tal como o faz no Seu Filho muito amado, por meio do seu Espírito Santo. O Espírito Santo é em nós a alegria do Pai e do Filho.   

«Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para podermos conhecer os dons da graça de Deus. (…) o Espírito tudo penetra, até as profundidades de Deus.» (1Cor 2, 10.12)

A alegria do Espírito está em introduzir-nos nas profundidades de Deus para nos fazer conhecer os dons da graça de Deus. E “a esperança não engana porque o Amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Podemos “conhecer”, na fé, as profundidades de Deus. Isto significa que a fonte da alegria está em nós porque «do seio daquele que acredita em mim correrão rios de água viva». Este rio é o que inunda a cidade de Deus e a enche de júbilo. Conhecer os dons da graça de Deus é conhecer este rio que nos inunda.

As verdades de fé são portadoras duma alegria infinita em que nos podemos recriar a cada momento. Em que a própria alma se sente impelida a perder-se em Deus, porque sente que a verdade de Deus a dilata e a enche duma alegria que permanece: «Sem o terdes visto, vós o amais; sem o ver ainda, credes nele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante…» (1Pe 1,8)

A profecia de Isaías acerca da alegria é ela mesma sinal de vida divina: «Sereis como um jardim bem irrigado, como uma nascente de águas que jamais secarão». E isto abre-nos à verdadeira alegria, aquela que possuímos em nós e que ninguém nos pode tirar, a presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

«Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa».

«Pai santo, peço-te que eles tenham em si a plenitude da minha alegria» Jo 17,13. Jesus pede ao Pai a plenitude da sua alegria para nós. É este pedido de Jesus ao Pai que harmoniza em nós a dor e a alegria. A dor é algo que só afecta os sentidos, a nossa vontade está por disposição divina aberta à alegria. Mesmo nas horas em que a dor é mais intensa e nos penetra mais intimamente, se nos elevarmos acima dela percebemos que em nós está também o Consolador: «Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um Consolador para que permaneça sempre convosco. É o Espírito de Verdade… Ele estará em vós» (Jo 14,16).

A contemplação de Cristo mantem-nos os olhos erguidos para o céu e faz-nos cantar as perfeições e o amor do Esposo, enchendo-nos de alegria interior. «Alegrai-vos sempre no Senhor, repito, alegrai-vos». Este é o convite a permanecer em Cristo, a escolher a alegria.

Permanecer na alegria é permanecer no Espírito Santo. Ser alegria de Deus é ser totalmente dócil à presença do Espírito e tornar-se semeador de alegria. A alegria é uma força difícil de resistir, porque é serena, pacifica, conquista, arrasta. Ser alegria de Deus é ser como o Espírito Santo atrair para Deus pela manifestação das obras que a presença de Deus realiza em nós. Ser alegria de Deus é abandonar-se totalmente à sua acção. E para isto o próprio Espírito de amor aconselha-nos a mantermo-nos sempre serenos, mesmo no meio das turbulências da vida: «Não vos aflijais porque alegria de Deus é a vossa fortaleza». (Nem 8,10)

Com isto estamos a passar o umbral daquilo que os nossos sentidos podem captar e a entrar na própria acção de Deus sobre nós, porque Deus em Si mesmo é amor, a Sua acção sobre nós é alegria. Deus sempre age em nós de forma a manifestar alegria da Sua acção, se nem sempre sabemos acolher o júbilo de Deus é porque a nossa fé ainda não nos permite participar dessa alegria que é a comunhão de vida com o próprio Deus.

 

Neste fixar os olhos em Cristo, fonte da nossa alegria, e ao contemplar o amor com que somos amados, Deus pode-nos fazer conhecer a Sua presença em nós de forma mais íntima e pessoal. E vamos descobrir que o mistério do próprio ‘Deus Trindade’ o conhecemos pela acção e pelo amor com que Eles invadem a nossa alma, a nossa interioridade. Deus ama-nos sempre, mas quando temos a percepção do acto amoroso com que Deus nos está a amar conhecemos quem nos está a amar o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Os Três amam-nos com um amor diferente, porém com o mesmo amor, um amor único. Um amor que nos faz perceber a sua atuação sobre nós como um só. E na realidade ao olharmos para a graça derramada na nossa vida vemos uma tríplice efusão de amor com características próprias de cada um que nos está a amar.

O Pai vem até nós como fonte de vida e de paz: é o Criador que forma a sua criatura e a sustenta na vida, em harmonia com o seu plano salvador. É Ele que nos envolve com a sua bondade e a sua ternura e a sua bondade chega até nós como o olhar com que Deus nos faz olhar para a vida e clamar: ‘vimos o que Deus fez e era tudo muito bom’.

O Verbo como luz. Pensamento do Pai, Sua Palavra Viva, sua Imagem, une-se à nossa vontade para nos introduzir no conhecimento íntimo de Deus.

O Espírito Santo como manancial de amor. Amor do Pai e do Filho, eterna saída de amor do Pai e do Filho e consumação da sua vida, une-se à nossa vontade para nos fazer conhecer o amor sobrenatural, para nos amar com este amor que é a saída do Pai e do Filho de Si mesmo para se manifestarem em nós, para consumarem em nós a plenitude da vida. Comunicando-se à nossa vontade este amor impele-nos a deixarmo-nos amar, a deixarmo-nos transformar em amor.

Neste mistério do conhecimento do amor e na saída de Deus até nós vemos que há uma memória viva das Três Divinas Pessoas na nossa própria alma.

Vem Senhor Jesus, que Te esperamos!