«Vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus»

Nos nossos dias estas palavras de S. Paulo aparecem como uma chave de leitura clara e luminosa, um convite a olhar a vida com olhos de Páscoa. De facto nós morremos. Morremos a muitas das nossas rotinas, a muitas coisas que considerávamos importantes e que pareciam imprescindíveis, mas que afinal não o eram porque a vida continua. Morremos a alguns projetos para descobrir outros horizontes e aceitar novos desafios. Morremos à correria louca que a sucessão de ocupações e atividades nos impunha para reaprender a valorizar aquilo que sustem e é o substrato da nossa existência, a vida.

Esta morte quer significar ‘passagem de Deus’ pela nossa vida, quer significar Páscoa de Cristo em nós. Esta morte quer nos fazer despertar para a vida com olhos de Páscoa, para vermos a vida com a beleza da graça que Deus lhe infunde a cada instante, porque quer queiramos quer não: «N’Ele somos, nos movemos e existimos» e fora d’Ele nada subsiste. Em Cristo tudo foi renovado, n’Ele assistimos a uma nova criação: «Eis que faço novas todas as coisas».

«A nossa vida está escondida com Cristo a Deus». Esta é a nossa Páscoa, a passagem de nós a Deus. A passagem do nosso protagonismo em tudo, para darmos espaço a Deus na nossa casa, lugar na nossa família e tempo na nossa vida. A Páscoa é em si mesma uma passagem, uma passagem para algum lugar ou para Alguém e neste sentido é fácil recordarmos um retrato de Páscoa que todos conhecemos e que o Espírito Santo nos deu, no início desta Quaresma, como chave de interpretação deste tempo, para todos tão original: A imagem do Pai bom e do filho Pródigo (Lc 15).

O filho representa a Humanidade que livremente decidiu sair da casa do Pai, isto é eliminar a Deus da sua vida, viver por sua conta e risco e gozar dos bens e dons que tinha recebido de Deus. Um gozo irrefletido, reduzido ao horizonte finito do momento presente. Um gozo que parecia consequência do ser livre, mas que pouco a pouco foi convertendo a liberdade em escravidão porque a confinou aos estreitos horizontes do espaço e do tempo, ignorando o mundo interior que cada um tem dentro de si, onde se encontra a verdadeira liberdade.

Eu não sou livre pelo que faço ou digo ou pela imagem que apresento de mim mesmo. Eu sou livre quando Deus passa através de mim, quando Deus dá testemunho de mim confirmando as minhas acções com a Sua graça. Sou livre quando escolho a “fasquia alta” da relação com Deus e da Sua presença em mim, como critério para a minha vida. Aí sim, sou livre, porque esta liberdade é a única que tem a capacidade de transformar todas as coisas em bem. Esta liberdade nasce da confiança n’Aquele que sei que me ama infinitamente e deu a sua vida por mim. Esta liberdade é uma conquista diária, é uma Páscoa, porque é a conquista dos meus limites e a passagem de mim a Deus.

Mas vamos continuar com a nossa imagem do Pai Bom e do filho pródigo. O Filho esbanjou os seus bens e acabou como trabalhador duma quinta a guardar porcos e sem nada para comer. É estranho, mas a verdade é que é aqui neste momento que começa, para Ele, a páscoa. A sua situação fá-lo reflectir; faz com que olhe para a vida com outros olhos, olhos de Páscoa e conclua por si mesmo: «Tantos trabalhadores na casa de meu pai e eu aqui a morrer à fome. Vou partir, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho, trata-me como um dos teus trabalhadores».

A Páscoa começa por tomarmos consciência de como está a nossa vida para depois reconhecermos qual é o caminho que temos de tomar. Depois deste momento fica a determinada determinação: “Vou partir, vou ter com o meu Pai e dizer-lhe: Amo-Te Senhor”. Para nós a Páscoa aparece como desafio de caminho. Vamos partir, partir de nós para Deus, para o nosso Pai.

Mas se á Páscoa para o filho é também Páscoa para o Pai. E como é a páscoa do Pai? Vamos ver.

«Ele ainda estava longe, quando o Pai o viu: encheu-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. (…) Depois disse aos servos: trazei depressa a túnica mais bela e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos… E começou a festa». (Lc 15)

O Pai avistou-o quando ainda estava longe. Bem sabemos que o olhar do coração vê sempre mais longe, tem o condão de alargar o horizonte. E as entranhas do Pai só de o ver ao longe sentiram compaixão. E aqui entramos no mistério da beleza de Deus, se entendemos compaixão como um “sentir com” o pai sentiu em si a dor do filho – sentiu com o filho a sua paixão – e o sentir com o filho faz com que corra pôr-se ao seu lado e o cubra de beijos, quer dizer lhe dê a sua paz. A Páscoa de Deus nosso Pai está em avistar-nos e vir ao nosso encontro, pôr-se ao nosso lado e dar-nos a sua paz. 

Este é o movimento da Páscoa de Deus até cada um de nós – a “passagem de Deus” por nós e para nós, porque na base da nossa vida está um amor maior, o amor de Cristo Crucificado, que nos amou e se entregou por nós para nos dar vida com a Sua Vida. Um amor que nos amou primeiro e por isso faz com que o Pai nos aviste primeiro e venha ao nosso encontro. Avista-nos com os olhos do coração para nos dar a Sua Paz e nos fazer entrar na Sua Festa.

E a Festa de Deus é sempre Festa de Páscoa: «Festejemos porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado». E de que consta a festa de Deus?

«Trazei depressa a túnica mais bela e vesti-lha». E qual é a túnica mais bela? É a túnica lavada no sangue do Cordeiro. «Estes quem são e donde vieram? Estes são os que lavaram e branquearam as suas túnicas no sangue do Cordeiro» e agora gozam na festa do Céu. Para nós a túnica mais bela é a que nos torna filhos de Deus: «Vede que admirável amor o Pai nos consagrou ao chamar-nos Filhos de Deus e nós somo-lo de facto».

«Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés». O anel no dedo e as sandálias nos pés são sinais de pertença a uma família, a uma linhagem nobre e importante. Hoje diríamos são sinais de ‘reintegração’ na família, Deus reintegra-nos na Sua família.

S. Paulo fala-nos desta ‘reintegração’ de forma muito bela: «Dobro os joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda a família no céu e na terra, para Lhe pedir que Ele conceda, segundo a riqueza da sua glória, que vós sejais fortalecidos em poder pelo seu espírito no homem interior, que Cristo habite pela fé em vossos corações e que sejais arraigados e fundados no amor. Assim tereis condições para compreender com todos os santos qual é a largura e o cumprimento, a altura e a profundidade e conhecer o amor de Cristo que excede todo o conhecimento para que sejais cheios com toda a plenitude de Deus». (Ef 3, 14-20)

A Festa da Páscoa consiste em sermos cheios da plenitude de Deus. Fortalecidos pelo Espírito Santo no nosso ser interior, isto é, no nosso ser filhos de Deus. Iluminados pela luz da fé acesa nas nossas vidas, pela presença de Cristo Ressuscitado. Abraçados pelo amor de Deus, que nos faz conhecer e experimentar a alegria da Páscoa de Deus em nós e fazer da nossa vida uma contínua Festa de Páscoa, isto é, lugar da ‘passagem de Deus’. Beijados pelo beijo do Pai que é o Espírito Santo e nos dá a paz e a certeza de estarmos sempre sob os cuidados e a protecção de Deus.

A Festa é um ténue reflexo do encontro de Cristo com o Pai e o Espírito Santo, no seu regresso ao céu após ter cumprido a vontade do Pai. Depois de Cristo nos ter reconciliado com Deus pela cruz, esta tornou-se uma fonte de alegria que inundou o mundo com a certeza de que não é a morte que tem a última palavra mas a VIDA. Pela cruz o mundo encheu-se com a música da festa. Porque a Páscoa tornou-se a certeza de que, em Jesus, Deus corre ao nosso encontro para nos abraçar, nos dar a Sua paz e nos convidar a entrar na Festa que é a comunhão de vida com Ele.

Se decidimos percorrer o nosso caminho interior até ao coração, onde Deus nos espera, a nossa vida será inundada pela alegria da VIDA, a música da Festa que nos enche de Esperança, os beijos da Paz que nos fazem sentir abençoados por Deus e os abraços da aliança que nos fazem sentir que não estamos sozinhos, mas pertencemos a uma família, a família de Deus.

Na Páscoa da Ressurreição de Cristo Redentor, Deus amou-nos com amor eterno e por isso reservou graça para nós. Que a Esperança nos encha de Alegria, porque Deus, nosso Pai, está connosco e em Cristo Ressuscitado convida-nos para a Festa da Páscoa! Com os olhos postos na Cruz que é a Porta da VIDA entremos para a FESTA da Páscoa que é a vida escondida com Cristo em Deus!

Unidas a todos na força da Ressurreição que nos chega através da oração as Carmelitas Descalças do Carmelo de Cristo Redentor desejam-lhes umas santas e abençoadas Festas da Páscoa do nosso Redentor.

Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro