«O Cordeiro que foi imolado
é digno de receber o poder e a riqueza,
a sabedoria e a força,
a honra, a glória e o louvor.»

Naquela conversa estávamos a falar de santos e do caminho da santidade de cada um. A um dado momento disse: «Eu nasci da Cruz» e a resposta não se fez esperar: «Isso não é seu, isso é uma imitação de Santa Teresa Benedita da Cruz. Não faz mais do que imitar a Edith Stein». Fiquei em silêncio e não respondi, porém sabia que não era imitação mas comunhão com o Cordeiro Imolado na Cruz.

Comecei à procura, na minha história, dos sinais da presença do mistério de Cristo e do mistério da comunhão dos santos. E fui encontrando um a um. O primeiro que encontrei foi o dom do Sangue do Cordeiro imolado, eu tinha lavado a minha veste no Sangue do Cordeiro e por isso tinha nascido da Cruz. Tinha sido “submergida” no abismo da Sua morte e nascido na Sua ressurreição e por isso a comunhão com a Santa não era imitação, era verdadeiramente comunhão, mas não comunhão com a santa, senão comunhão com o próprio mistério do Cordeiro Imolado. Ela e eu comungávamos do mesmo mistério e vivíamo-lo de forma igual. E não podia ser de outra forma, porque Cristo Crucificado, por Amor, nos tinha resgatado do pecado com o seu sangue e nos tinha transferido para o seu reino de luz. Isto era o sinal mais fidedigno de que era a graça de Deus que descia até nós, porque a presença do Cordeiro Imolado produzia em nós os mesmos efeitos, fazia de nós as duas uma só, no Seu próprio mistério. As duas eramos uma só em Cristo e no Seu mistério.

Eramos muito diferentes, e separavam-nos várias décadas, mas o Cordeiro Imolado tinha-nos irmanado n’Ele e a nossa semelhança estava n’Ele e sempre estará n’Ele, no amor que derrama sobre nós e nos faz participar no Seu mistério.

A comunhão é mais profunda do que a imitação. A comunhão brota da presença do próprio mistério inscrito no nosso coração, é uma força interior que nasce da participação no mistério de Cristo e nos dá um nome novo, nos revela a nossa identidade divina – quem somos nós para Deus, e nos une a todos aqueles que na glória vivem o mistério do Cordeiro Imolado, que por dom divino se faz nosso.

Com a redução da minha experiência a uma simples imitação descobri como estamos longe de receber toda a graça divina que chega até nós pelo Sangue do Cordeiro Imolado, como estamos longe de conhecer a força que nos vêm do Sangue do Cordeiro Imolado, como estamos longe de nos abrirmos aos tesouros de sabedoria e riqueza, de santidade e comunhão na vida divina que nos são oferecidos pelo sangue do Cordeiro Imolado…

Vamos lançar o nosso olhar para o céu e ver o que nos oferece o sangue do Cordeiro Imolado:

«Depois, vi na mão direita do que estava sentado no trono um livro escrito nas duas faces e selado com sete selos. 2Vi também um anjo forte que clamava com voz potente: «Quem é digno de abrir o livro e de quebrar os selos?» 3Mas ninguém, nem no céu nem na terra, nem debaixo da terra era capaz de abrir o livro nem de olhar para ele.

4E eu chorava copiosamente porque não fora encontrado ninguém digno de abrir o livro nem de olhar para ele. 5Então, um dos anciãos disse-me: «Não chores. Porque venceu o Leão da tribo de Judá, o rebento da dinastia de David; Ele abrirá o livro e os seus sete selos.»

6Depois olhei e vi no meio do trono e dos quatro seres viventes e no meio dos anciãos, um Cordeiro. Estava de pé, mas parecia ter sido imolado. Tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados a toda a terra. 7Depois, o Cordeiro aproximou-se e recebeu o livro da mão direita do que estava sentado no trono. 8E, quando Ele recebeu o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro. Cada um deles tinha uma cítara e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos. 9E cantavam um cântico novo, dizendo:

«Tu és digno de receber o livro

e de abrir os selos;

porque foste morto e,

com teu sangue, resgataste para Deus,

homens de todas as tribos, línguas, povos e nações;

10e fizeste deles um reino e sacerdotes para o nosso Deus;

e reinarão sobre a terra.»

11Na visão, ouvi a voz de uma multidão angélica, à volta do trono, dos seres viventes e dos anciãos; o seu número era de miríades de miríades, milhares de milhares e 12cantavam com voz forte:

«O Cordeiro que foi imolado

é digno de receber o poder e a riqueza,

a sabedoria e a força,

a honra, a glória e o louvor.»

13Ouvi também todas as criaturas do céu, da terra e de debaixo da terra, do mar e de tudo quanto neles existe, que proclamavam:

«Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro,

Sejam dados o louvor, a honra,

a glória e a fortaleza

pelos séculos dos séculos.»

14E os quatro seres viventes diziam: «Ámen.» E os anciãos prostraram-se em adoração.»

(Ap. 5, 1-14)

Nesta grandiosa cena do Apocalipse, em que o Cordeiro imolado está no centro e abre os sete selos do livro misterioso provocando os louvores do coro dos anjos e dos anciãos há uma frase que se a rezarmos nos pode ajudar a compreender quem é o santo e qual é a sua missão.

No santo encontramos um elemento divino e outro humano. O elemento divino vem da graça, que recebemos pelo Sangue do Cordeiro Imolado, que penetra na pessoa humana e a recria. Aquele Sangue divino redime a pessoa de tal forma que a faz nascer de novo, convertendo-a em filha de Deus e herdeira do céu. Desta forma a pessoa entra a fazer parte do Reino de Deus, porque se converte em discípulo da Verdade, filho da Luz e anunciador do Amor. E de tal maneira vai crescendo nessa nova vida que se torna construtor do Reino, a sua vida é anúncio vivo do Reino.

Este dom é-nos oferecido a todos por igual: «porque foste morto e, com teu sangue, resgataste para Deus, homens de todas as tribos, línguas, povos e nações; e fizeste deles um reino e sacerdotes para o nosso Deus; e reinarão sobre a terra.» (Ap 5, 9-10)

O elemento humano é dado pela livre cooperação da pessoa com a graça, e, está presente no texto com uma imagem muito bonita: «E, quando Ele recebeu o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro. Cada um deles tinha uma cítara e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos.» (Ap 5, 8)

Apoiados nesta imagem podemos dizer que o santo é uma taça de ouro cheia a transbordar do Sangue de Jesus, da sua graça, da sua divindade: «Pois da sua plenitude todos recebemos graça sobre graça» (Jo 1, 16). É uma taça que se deixou esvaziar dos seus ‘maus humores’ para se encher unicamente do Sangue Divino. Deixou-se a si mesmo e encheu-se de Cristo. É uma taça de ouro, e se considerarmos ouro como símbolo de Deus Pai, é uma taça do Pai Eterno, repleta de Cristo e por isso O irradia em toda a sua vida. O seu perfume é o bom odor de Cristo. É também uma cítara de ouro, dócil aos dedos do Artista Divino. Cítara de ouro porque canta com amor e sem cessar os louvores do seu Senhor com a oração, com a vida e com as boas obras.

Continuando a contemplar esta imagem do Apocalipse podemos dizer que a missão do Santo, na terra, é ser cítara de Deus. Na verdade todos os santos são cítaras de Deus, cítaras do Espírito Santo. A sua vida de fé e de oração desperta os irmãos para a presença do «Esposo que está a chegar». A confiança e o abandono nas mãos de Deus geram no seu coração paz e serenidade e alerta os distraídos para «o suave que é o Teu Espírito, ó Senhor!» (Sb 12, 1)

Esta suavidade é o canto da sabedoria divina que lhe chega do Cordeiro imolado, Aquele que abre «o livro selado com sete selos». Este livro onde se encontra escrita a vida de todos nós, mas que só pode ser lida à luz da plenitude do Cordeiro Imolado. A chave de leitura da nossa vida, e da vida de cada santo, é o Sangue do Cordeiro Imolado. Este sangue divino abre os selos e faz o santo conhecer, viver e cantar a suavidade da sabedoria divina. Também ele, como os anjos da visão, canta o cântico novo, com a sua vida diária canta o amor com que Deus o ama e o convida a amar os irmãos, a alegria interior da fidelidade e a fraternidade sincera fazendo novas as palavras e o testemunho de Cristo: «Amai-vos como eu vos amei». E este cântico é tão cheio de beleza divina que ressoa até aos confins da Igreja: «Cantai ao Senhor um cântico novo: o seu louvor ressoe na assembleia dos fiéis» (Sl 149).

O santo, na terra, é ainda uma taça cheia de Deus. Precisamente por estar cheio de Deus, deixa transparecer a Sua presença, faz sentir o Seu gosto, mesmo quando não fale. A cada santo podemos fazer o mesmo pedido que aquela criança fazia à sua mãe, quando esta regressava da Igreja: «Mãe, dá-me a cheirar o perfume de Jesus».

O Santo sabe espremer na taça de ouro do seu coração as uvas doces e os bagos amargos. Ele recebeu de Deus o dom de transformar em bem tanto o bom como como o menos bom, porque «tudo é graça» e «acontece para bem dos que amam a Deus segundo a Sua vontade».

Esta é a vontade de Deus para vós: a vossa santificação. E o Papa Francisco diz-nos no número 7 da Gaudete et Exsultate: «Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus…».

Vamos continuar a contemplar a imagem do Cordeiro Imolado e ver qual é a missão do santo no céu. Parece-nos mais fácil fixar o olhar no céu e ver que: «Cada um deles tinha uma cítara e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos.» (Ap 5, 8)

Na realidade os santos no céu têm a missão de adorar, louvar e bendizer a Deus unidos ao coro dos Anjos. Eles estão à volta do Cordeiro Imolado como taças cheias do Seu Divino Sangue e cantam incessantemente e com voz forte: «O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder e a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor.» Como é lindo o canto divino!

Mas estando no céu, não estão separados de nós! Para nós, eles também são cítaras e taças de ouro. Cítaras que tocam a suave melodia da oração de intercessão, por cada um de nós, para que o Sangue do Cordeiro Imolado não se perca, mas seja para nós fonte de graça e de vida nova, fonte de participação na grande festa do céu. E taças de ouro cheias do precioso licor do Cordeiro, que todos os dias estão diante de nós, para nos fazer saborear como é doce servir a Jesus e sacrificarmo-nos por Ele, e, experimentar a intimidade do seu amor. Desta forma os santos são laços de união entre nós e Jesus.

Ter os santos como amigos é: estreitar o vínculo de amor que nos une ao Cordeiro Imolado, escada para subir da terra ao céu e protecção contra as forças contrárias que procuram afastar-nos da irradiação do Sangue do Cordeiro. Ter os santos como amigos é entrar no mistério da Comunhão dos Santos e descobrir que também nós estamos chamados a exultar e alegrar-nos porque os nossos nomes estão escritos no céu, no mistério de Deus. O Papa Francisco lança-nos o desafio da santidade: «ALEGRAI-VOS E EXULTAI»  (Mt 5, 12), diz Jesus a quantos são perseguidos ou humilhados por causa d’Ele. O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. Com efeito, a chamada à santidade está patente, de várias maneiras, desde as primeiras páginas da Bíblia; a Abraão, o Senhor propô-la nestes termos: «anda na minha presença e sê perfeito»

Deus Santo,

Concede-me a graça de ser

Uma lira tocada pelo teu Espírito de Amor

E uma taça de ouro cheia do sangue do Cordeiro Imolado.

Concede-me experimentar alegria que é

Ter-te como Amigo e cantar os teus louvores.

Concede-me a graça de Te oferecer tudo o que sou

Para que possas manifestar na minha vida a Tua Santidade.

Não quero outra coisa senão ser santo,

Desses santos para quem Tu és a única riqueza.

Esses que se escondem em Ti

E te dão as suas mãos e os seus pés,

O seu coração, a sua memória e vontade,

Para serem instrumentos do Teu Amor,

na construção do Reino.

Desses santos que se deixam despojar

Para através da confiança e do abandono à vontade do Pai,

Serem transformados em Ti.

Agradeço-Te

Por todos os Santos que do céu cuidam de mim,

Pelos que colocas ao meu lado como companheiros de caminho,

Pelos que me ensinam a viver o mistério da Comunhão dos Santos.

Obrigado por me chamares a ser santo como Tu és Santo.

Que a Tua santidade seja a minha felicidade!

Amen.