(OCDS) 13. Como desafia a conhecer, cada carmelita, Santa Teresa como mulher e mística?

(IRMÃ) Santa Teresa é sinal de que o pleno desenvolvimento do ser de mulher, segundo o desígnio de Deus, requer a experiência mística, ou como habitualmente dizemos, uma profunda vida interior.

Só no amor de Deus a pessoa consegue libertar-se dos limites da sua natureza sujeita ao pecado. Só na relação pessoal com Cristo a mulher é elevada do meramente natural e atraída à plena união com Ele, não à margem do seu ser mas desenvolvendo tudo o que a constitui como mulher, porque a redenção que Cristo nos oferece não se limita ao que o homem e a mulher têm de comum, mas abrange o que é específico de cada um.

Entendemos como experiência mística a amizade pessoal com Cristo que a Santa nos revela nos seus escritos sobre a vida de oração nos seus diferentes graus.

A mulher, dada a sua feminilidade, está mais dotada para o encontro com o Senhor, já que lhe permite entregar-se a Ele, não apenas como Deus feito homem, mas como verdadeiro esposo da alma. Entregando-se a Ele sem limites, dá ao mesmo tempo o melhor de si ao serviço do próximo, porque nada como o amor divino a faz amar os outros como Ele nos amou. E não há maior fecundidade que “gerar” nova vida através da entrega da sua. Santa Teresa é um exemplo claro disto.

É precioso que ela nos conte pessoalmente a sua trajetória humana-feminina, espiritual-mística. A sua conversão, no encontro com Cristo chagado (V 9,1), assinala um antes e um depois. Cristo ficou de tão maneira impresso na sua alma que já não pode «ter amizade nem consolação, nem amor particular, senão a pessoas que vivessem a amizade com Deus (V 24,6). Tudo toma um novo rumo quando ela compreende desde o seu interior que não há vida, nem verdadeiro encontro até «não por toda a confiança na sua Majestade e perde-la de todo de mim» (V 8,12).

Na Santa Madre podemos seguir passo a passo o percurso da força transformadora e libertadora da misericórdia divina que ela descobre na vida de oração e que desperta todo o seu ser de mulher com todas as suas capacidades de amar, libertando-a de si mesmo até morrer de amor. Isto faz com que a vejamos como uma mulher comprometida com o homem do seu tempo, aberta ao Espírito Santo e grande colaboradora de Cristo na Sua obra de salvação. Neste sentido é um exemplo vivo da força libertadora e construtora do feminino.

Santa Teresa de Jesus é Madre fecunda não apenas porque gerou muitos filhos e filhas carmelitas, mas porque a sua maternidade espiritual foi muito além dos muros dos seus conventos, alimentando até hoje, com o alimento bebido diretamente da adega do Amado, muitas gerações.

Cada Carmelita com a sua especificidade feminina, inscrita no seu ser, pelo Criador, desde toda a eternidade é imagem de Deus. E só na medida, em que como mulher vive enraizada no crisol do eterno, o próprio Deus e o seu mistério, desenvolverá a sua feminilidade mais além das suas próprias forças. O exemplo de Santa Teresa ensina-nos que não há plenitude de mulher à margem de Cristo. O dom reclama a graça para chegar a ser fecundo. Para ser verdadeiramente mulher e verdadeiramente carmelita é necessário desenvolver uma intensa e profunda relação de amizade com Cristo, esposo da alma, para movidas pelo Espírito Santo colaborar com Ele na obra de salvação de todos os homens.

(OCDS) 14. Na condição de Freira de Clausura, como se identifica com Santa Teresa de Jesus enquanto mulher e mística?

(IRMÃ) Como filha e herdeira de Teresa de Jesus reconheço na minha história um antes e um depois do encontro com Cristo. O encontro que me faz comungar de Cristo e do seu mistério. Diante da riqueza da espiritualidade carmelita, sempre dizia:

«sou muito pobre, de meu tenho apenas Cristo e Cristo Crucificado, que o Pai me deu ao entrega-lo por mim».

O meu encontro foi com Cristo e Cristo Crucificado e a minha participação foi no mistério da Cruz. A Cruz foi a minha porta de entrada para a união com Cristo, para a realização da minha vocação como esposa de Cristo. Com o amadurecer da fé compreendi que o dom da Cruz foi o dom da participação no mistério de Cristo e da transformação em Cristo. E esta é a minha maior riqueza. Depois do encontro com Cristo, na Cruz, fui transformada em Sabedoria de Deus, a Sabedoria do Pai que é o Verbo Eterno, já S. Paulo o dizia aos coríntios: «A Cruz é sabedoria de Deus e poder de Deus».

Sou mais mulher e mais carmelita quanto mais sou um só espírito com Cristo. Ser uma com Cristo, ao serviço da Igreja e no compromisso orante por cada irmão dá fecundidade à minha vida e realiza a minha maternidade espiritual.

Dou graças a Deus e a Santa Teresa que aceitou o desafio de fazer de mim sua discípula, filha e herdeira, e, me ensinar a sua Sabedoria.

 (OCDS) 15. Irmã, um último pedido, já em jeito de despedidas. Será que se lembra de alguma poesia de Santa Teresa, que nos queira recitar?

(IRMÃ)

Existe um soneto ou uma oração que a tradição atribui à Santa Madre e que dizem trazia no seu breviário, que considero uma síntese perfeita do meu percurso orante e que para mim tem sempre sabor de vida eterna, sabor de amor divino e encontro com Deus. Nós Carmelitas rezamo-la no Ofício Divino, no dia 15 de Outubro, precisamente na Solenidade da Santa:

Não me move, Senhor para Te amar
O Céu que me prometestes
Nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de Te ofender.

Tu me moves, Senhor,
Move-me ver-Te
Pregado em uma Cruz e escarnecido
Move-me ver teu Corpo tão ferido,
Movem-me tuas afrontas e tua morte.

Move-me enfim o teu amor,
E de tal maneira,
Que ainda que não houvesse Céu eu Te amaria,
E ainda que não houvesse inferno Te temeria.

Nada tens que me dar para que eu Te queira,
Pois mesmo que eu não esperasse o que espero,
O mesmo que Te quero
Eu te quereria.

(Santa Teresa de Ávila)

Que Santa Teresa nos abençoe a todos, nos tome por seus discípulos e nos faça verdadeiramente Amigos de Deus!