Numa conversa informal com um médico, que é diácono e dá assistência espiritual na prisão, terminamos a falar nos presos. E dizia ele que: é quando um preso lhe abre o coração e lhe conta os seus problemas e lhe deixa antever os sentimentos que leva dentro, que vê a grande pobreza que é o ser humano, sente que tem nas mãos a fragilidade da vida humana, como somos todos tão pouca coisa.

A maioria são jovens e estão ali porque foram postos fora de casa pelos pais, uns aos 10 anos, outros aos 13, outros aos 15 depois juntaram-se a um grupo e dedicaram-se à droga, ao roubo, a lutar pela sobrevivência.

Outros não tinham meios para sustentar a família, não tinham o que dar de comer aos filhos e tornaram-se passadores de droga, foram apanhados e estão ali. Agora sentem vergonha de dizer aos filhos que estão presos e então mantêm a mentira de que estão a trabalhar longe e não podem vir a casa. Sofrem porque não veem os filhos e os filhos sofrem porque estão longe do pai. E a razão de ser daquela vida que era sustentar a família, deixa de ter sentido e passa a ser uma dor muito intensa, porque estão separados.

O mistério do ser humano é muito complexo, mas na prisão tudo aparece desnudo com a rude beleza da verdade do coração humano. Quase todos eles, para além da pena a cumprir como presos, têm que fazer o corte com a droga e passam pela depressão. São processos muito dolorosos que nos fazem sentir a fragilidade da vida. Contudo foi deste nada que Deus se enamorou!

Este ano é o meu primeiro Natal como assistente da prisão e queria que na Noite da Natal um café quente, uma bebida quente. Muitos não têm possibilidade de o ter. Eles são 140 vamos ver como o fazer.

Quando o doutor terminou o trabalho que veio fazer, peguei no envelope com o respetivo dinheiro para pagar e entreguei-lho. Ele respondeu-me: Hoje é a primeira semana do Advento esse dinheiro é para as Irmãs. Voltei a pegar no envelope e disse-lhe: Então este dinheiro é para o café quente da noite de Natal da Prisão e dei-lhe o envelope que ele recebeu com alegria. Era o primeiro dinheiro que recebia para o Natal dos presos.»

Depois continuamos a conversa e disse-me ele: «Sabe, perguntaram a Jesus no evangelho, não sei se é acerca dum cego ou de um coxo, “quem pecou para ele nascer assim, foi ele ou foram os pais?” Disse-lhe que isso era o capítulo 9 de S. João e que se tratava do cego de nascimento. Ele continuou: Jesus responde à pergunta desta forma: “Não foi ele, nem os pais é assim para que se manifeste a glória de Deus”. É disto que se trata, manifestar a glória de Deus, mas somos nós que agora estamos chamados a ajudar, estamos chamados a ser instrumentos de Deus para curar os outros, para ajudá-los a recuperar a vida, para libertá-los da sua cegueira. Somos nós que estamos chamados a manifestar a glória de Deus com a nossa aproximação às necessidades dos outros. Mas somos também nós os primeiros beneficiados porque a glória de Deus, a sua graça antes de chegar aos outros, passa por nós e transforma-nos, faz-nos experimentar a bênção de Deus e converte-nos em bênção de Deus para muitos.

No final, despedimo-nos e ele foi embora. Fiquei a pensar como ele tinha enquadrado o capítulo 9 do Evangelho de S. João na sua missão com os presos, como tinha identificado a sua missão como uma manifestação da glória de Deus e como de facto esta é a missão de todos nós, manifestar a glória de Deus, onde quer que estejamos pelos pequenos gestos da nossa vida feitos com amor para ajudar o próximo, o que vive connosco, mas também o que é nosso vizinho, ou o que está doente e mais distante, ou sozinho e sem ninguém. Que bonita a nossa vocação, manifestar a glória de Deus!

Mas na minha oração da tarde eu pus-me a contemplar o nascimento de Jesus e a ver onde se enquadravam aqueles presos. Onde estariam eles no presépio. Não foi difícil descobri-los, eram os pastores.

Os pastores eram os que estavam nos campos a guardar as ovelhas, viviam afastados dos meios sociais e pertenciam à classe mais baixa. Não estavam integrados na vida social. Dizemos nós que seriam uma classe à margem. E, contudo, foi a estes que os Anjos anunciaram a boa notícia, eram estes que estavam disponíveis para escutar, foram estes que acreditaram e se deixaram tocar.

«Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer» (Lc 2, 15): assim falam os pastores, depois do anúncio que os anjos lhes fizeram. É um ensinamento muito belo, que nos é dado na simplicidade da descrição. Os pastores tornam-se as primeiras testemunhas do essencial, isto é, da salvação que nos é oferecida. São os mais humildes e os mais pobres que sabem acolher o acontecimento da Encarnação. A Deus, que vem ao nosso encontro no Menino Jesus, os pastores respondem, pondo-se a caminho rumo a Ele, para um encontro de amor e de grata admiração. É precisamente este encontro entre Deus e os seus filhos, o que vemos acontecer na gruta de Belém.

Na Gruta de Belém, os pobres e os simples lembram-nos que Deus Se faz homem para aqueles que mais sentem a necessidade do seu amor e pedem a sua proximidade. Jesus, «manso e humilde de coração» (Mt 11, 29), nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial.

No meu coração eu fiquei a pre-sentir o que seria o encontro dum destes presos com o Menino da gruta de Belém, a ternura, a compaixão, a misericórdia que ali se respiraria. O encontro de um destes presos que diante que diante de todos, banhado em lágrimas tem a coragem de assumir a verdade do seu coração e dizer: “mas eu sou o pior de todos”, com que carinho o Menino o olharia, com que doçura e simplicidade se faria sentir no seu coração e com quanta alegria inundaria a sua alma dando-lhe a Sua Paz e o Seu Perdão.

E foi a estes que Jesus escolheu, os pastores, e hoje é a estes presos que Jesus escolhe e é desta prisão que Ele quer fazer gruta de Belém. Se vemos bem as coisas não deixa de nos provocar um calafrio e nos faz perguntar e nós? Nós, o que sentiremos diante do Menino da Gruta de Belém? A nós o que terá o Menino para dizer? Teremos nós a humildade, a simplicidade e a pobreza de coração suficientes para acolher o mistério do nascimento de Jesus na nossa vida?

Eu gosto muito dos pastores, considero que são os primeiros contemplativos da história, são homens de grande fé, mesmo sem o saberem. Eles acreditaram no que lhes foi dito e decidiram ir ver se era verdade, isto é, abriram a sua vida à boa notícia, à obediência da fé. Foram e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura, tal como lhes tinha dito o Anjo. Temos que ser destes homens e mulheres de grande fé, mesmo sem o sabermos, mas arriscarmos a ir ter com Jesus com a verdade do nosso coração acreditando que Ele é capaz de responder a todas as nossas dúvidas e inquietações, dar-nos a sua Paz e o Seu Amor, encher-nos da Sua luz e da Sua Alegria.

Diz-nos o Papa Francisco que: «Celebrar o Natal é fazer como Jesus, que veio para os necessitados, e descer até aos que necessitam de nós. É fazer como Maria: confiar-se, dóceis, a Deus, mesmo sem entender o que Ele fará. Celebrar o Natal é proceder como S. José: levantar-se para realizar o que Deus nos pede, mesmo não sendo conforme os nossos planos anteriormente decididos.»

E poderíamos acrescentar que: Celebrar o Natal é abrir a nossa casa e o nosso coração a Deus para que Ele entre, permaneça no meio de nós e nos dê a Sua bênção todos os dias da nossa vida.

Deus fez brilhar em nós a sua luz

Para que nela víssemos a imagem

Do esplendor da glória de Deus,

Que se reflete em Cristo Sol da vida.

Olhos na luz que nos prepara o dia

A luz nos leve ao dia do Senhor.

O seu clarão desfaça as nossas trevas

E reine a paz em nossos corações.

Que o nosso Deus o Pai da glória eterna

Se digne abrir ao céu o nosso olhar.

E nos revele a herança jubilosa

Que nos reserva em Cristo Salvador.

Honra e louvor e glória ao Pai do Céu.

Por Jesus Cristo, seu amado Filho.

Na unidade do Espírito Santo.

Honra, louvor ao Deus da eternidade.

Que o ano de 2022 seja para todos nós um ano abençoado, em que de facto sintamos na nossa vida a grande alegria que é “sermos manifestação da glória de Deus”.

Que Deus volte para nós o Seu rosto e faça brilhar sobre nós a Sua Luz, nos dê a Sua Paz e nos abençoe.

Santas e Felizes Festas de Natal de Jesus Salvador

Carmelo de Cristo Redentor