«“Os céus narram a glória de Deus”. Já que a minha alma é um céu, onde vivo esperando “a Jerusalém celeste”, impõe-se então que este céu cante também a glória do Eterno, nada mais do que a glória do Eterno. “O dia transmite ao dia esta mensagem”. Todas as luzes, todas as comunicações de Deus à minha alma são este “dia que transmite ao dia a mensagem da sua glória”. “ O decreto do Senhor é puro, canta o salmista, “ilumina o olhar”. Por conseguinte, a minha fidelidade em responder à chamada de cada um dos seus decretos, a cada uma das suas ordens interiores, faz-me viver na sua luz: também ela é uma mensagem que transmite a sua glória”. Eis porém a doce maravilha: “O Senhor, quem te olha, resplandece!”, exclama o profeta. A alma que, pela profundidade do seu olhar interior, em tudo contempla o seu Deus, na simplicidade que a separa de tudo o mais, essa alma é “resplandecente”: “é um dia que transmite ao dia a mensagem da sua glória”.

“A noite anuncia-a à noite”. Eis o que é bem consolador! As minhas incapacidades, repugnâncias, as minhas obscuridades, e mesmo as minhas faltas, narram a glória do Eterno! Os meus sofrimentos, da alma ou do corpo, narram também a glória do meu Mestre! David cantava: Que retribuirei ao Senhor por todos os bens que d’Ele recebi?” Ora justamente: “Tomarei o cálice da salvação”. Se o tomo, a este cálice empurpurado do Sangue de meu Mestre, e em acção de graças, plena de alegria, misturo o meu sangue com o da Vítima santa, fica de algum modo infinitizado e pode prestar ao Pai um soberbo louvor; então, o meu sofrimento é “uma mensagem que comunica a glória” do Eterno.

Aí, na alma que narra a sua glória, Ele levantou uma tenda para o Sol. O Sol, é o Verbo, é “o Esposo”. Se Ele encontrar a minha alma vazia de tudo o que não entra nestas duas palavras: o seu amor e a sua glória, então, escolhe-a para ser o “seu aposento nupcial” e nele se eleva, “como um herói que se lança triunfante na corrida”, e não consigo “fugir ao seu calor”. É este Fogo consumidor que fará a ditosa transformação de que fala S. João da Cruz, quando diz: “Cada um é o outro e ambos são apenas um”, para ser “louvor de glória” do Pai!

Isabel da Trindade