«Ele cobriu-me de benefícios e encheu-me do seu amor. O amor crescia em mim de tal maneira que não pensava senão em Deus; o amor dominava-me inteiramente».

A experiencia do amor de Deus em Teresa dos Andes ocupa toda a sua vida e está no centro da sua existência. Ao recordar a sua primeira comunhão toma consciência experiencial do amor de Deus. É a primeira vez que palpa fortemente o amor de Deus em si. Mas este reconhecimento do amor de Deus na sua vida vai crescendo constantemente e vai fazer despontar a gratidão: «Ele deu-me o ser e tudo quanto possuo, morreu por mim na cruz e constituiu-se em meu alimento na Santa Hóstia. Queria tê-l’O amado sempre, já que Ele me amou desde toda a eternidade».

Diante da experiencia vivida o amor de Deus ocupa em Teresa o primeiro lugar. Na lista dos amores o amor preferencial é o de Deus. De facto, pensando bem, nenhum amor pode competir com o amor de Deus. Isto para ela é claro. E desde a fé não é possível pensar de outro modo. E ela mesma vai explica-lo ao seu irmão:

«Luís, só me resta dizer-te uma coisa. Se me tivesse apaixonado por um jovem e acreditasse que seria verdadeiramente feliz com ele, mas tu não gostasses dele, não duvidaria em deixá-lo porque tu és muito querido para mim. Mas tratando-se de Deus e não de um homem, e, comprometendo não apenas a felicidade terrena mas a eterna, não posso voltar atrás na minha decisão. Devemos amar e servir ao nosso Criador em primeiro lugar e depois a todos os homens».   

A relação com Deus segue por uns caminhos muito pessoais e próprios ainda que com algumas semelhanças com os nossos. A base para a relação com Deus está em acreditarmos naqueles que tiveram uma relação próxima e directa com Ele, em nos apoiarmos na Sua Palavra. E a este acreditar chamamos fé. Nós não vimos a Deus, nem o tocamos, nem o escutamos, mas sentimos no nosso interior alguma coisas que nos empurra a acreditar n’Ele e a amá-L’O.

Teresa dos Andes fala-nos com muito realismo da sua relação com Deus. Ela explica-a com uma linguagem próxima e clara. Também a ela parecia impossível amar ou relacionar-se com Deus sem os sentidos, até experimentou outro caminho, o caminho próprio de Deus.

 «É verdade que não vemos a Deus com os olhos do nosso corpo. Mas Deus faz-se-nos visível pela fé. Não o palpamos com as nossas mãos, mas palpamo-l’O em cada uma das suas obras. Acredita em mim. Digo-te sinceramente: antes eu achava que era impossível chegar a enamorar-se de um Deus a quem não via, a quem não podia acariciar. Mas agora afirmo com o coração na mão que Deus ultrapassa por completo esse sacrifício. De tal maneira podemos sentir esse amor, essas carícias de Nosso Senhor, que nos parece tê-l’O ao nosso lado. Sinto-O tão intimamente unido a mim, que não posso desejar mais, a não ser a visão beatífica no céu. Sinto-me cheia d’Ele e neste momento estreito-O contra o meu coração pedindo-Lhe que te dê a conhecer as delicadezas do seu amor.

Só em Deus encontrei um amor eterno. Que me poderá amar mais do que Nosso Senhor, sendo infinito e imutável? Não há separação entre nós. Onde eu vou, Ele está comigo dentro do meu pobre coração».

Deus ama com uma psicologia própria análoga à nossa: com a psicologia do amor. Um amor que tem razões que a cabeça não tem. Um amor que resolve tudo e elimina as distâncias entre Ele e nós. Assim o entendeu Teresa:

«Deus superou o imenso abismo que existia entre Ele e a sua pobre criatura. Ele desceu até mim. Na sua infinita bondade e apesar da minha pequenez, amou-me com amor infinito. Ao amar-me Nosso Senhor nada reservou para Si. Diz-me existe algo maior sobre a terra que o Deus eterno, imutável, todo-poderoso, que procure um coração humano para o unir ao seu Coração Divino e fazer com ele, no amor, a fusão total?»

Deus ama com Deus. «Ama-nos com amor infinito» e para explicar este amor infinito ela vai estabelecer uma comparação entre o amor humano e a forma como Deus ama.

«O amor humano geralmente começa aos sete anos. Desde esta idade é possível conceber no coração do ser humano a paixão do amor. Mas em Deus esse amor é infinito. Deus é eterno e o seu amor é eterno. O amor humano assenta na beleza do corpo e na bondade do coração. Pois sendo o ser humano um composto de alma e corpo deve ter o seu correspondente proporcionado. A mulher deve reunir a beleza do corpo, para que o marido ao olhá-la se sinta agradado, mas também a beleza da moral, pois a beleza do rosto sem a beleza moral do coração não vale de nada. Mas é tão difícil reunir as duas, que estou convencida que a paixão que no princípio enchia o seu coração, depois converte-se em carinho e por último pode chegar à indiferença. O Amor é a fusão de dois corações num para se aperfeiçoarem mutuamente. Como se poderá unir um coração a outro mais perfeitamente do que o que Deus se une ao nosso coração?»

Deus ama-nos gratuitamente. O único motivo porque Deus nos ama assim é porque Ele é amor. Da mesma forma que o sol ilumina porque é luz, o amor ama porque é Amor.

«Penso sobre a minha vida. Deus conservou-me a vida durante quinze anos. Entre milhares de seres preferiu – me criar a mim. O ano passado estive com uma doença de morte e Ele voltou a dar-me a vida. Que fiz eu da minha parte para este favor tão grande, para que Deus me tenha dado a vida duas vezes? Em que é que gastei a minha vida ao longo de todos estes anos? Que fiz eu para agradar a esse Rei omnipotente, a esse Criador misericordioso que me criou? Porque me preferiu a mim entre tantas outras criaturas?

Pergunto-me de contínuo porque é que Deus me amou e ama tanto, reconhecendo eu tão pouco os seus benefícios. E só encontro uma razão a sua Bondade infinita».

Teresa sabe qual é a meta do amor de Deus: «Deus quer identificar a pessoa com o seu próprio ser, tirando-a dos seus pecados para a divinizar; de tal maneira que chegue a possuir as suas perfeições infinitas». E o caminho que ela intui para que isto aconteça é simples: Deus baixa para fazer subir o homem.

«Não imaginas quanto amor sinto ao contemplar esse Deus feito frágil Menino por nosso amor, e ao ver que no seu infinito amor, não recusa nenhum sofrimento nem humilhação para se aproximar de nós e unir a nossa pobre natureza humana à sua natureza divina. Deixou o céu, a sua divindade eclipsou-se. Não se retrai de descer até à pessoa humana para a unir a si e divinizá-la».

«Deus comunica-se à minha alma de uma maneira inefável. Já não é sensível o amor que sinto, é muito mais interior. Fico totalmente invadida por Deus. Sinto-o tão intimamente unido a mim, que não posso desejar mais, senão no céu. Sinto-me cheia d’Ele.

Jesus vive já no meu coração. Eu procuro unir-me, assemelhar-me, fundir-me n’Ele. Eu sou a gota de água que se há-de perder no oceano infinito. E para viver n’Ele o necessário é simplificar-se: não ter senão um só pensamento e uma só actividade: louvar.»