Desde aquela tarde comecei a olhar para Maria Madalena com outros olhos. Estávamos em pleno verão e fazia parte das férias um tempo de encontro com Deus no silencio e na solidão. A proposta que nos foi apresentada para este tempo foi a de caminharmos com Maria Madalena e como ela, também nós, escutarmos Jesus a chamar pelo nosso nome.
Não sei se cheguei a escutar Jesus a chamar pelo meu nome, mas sei que com a Madalena aprendi que não podemos ficar a chorar pelo passado porque isso impede-nos de reconhecer e acolher a graça do presente. E a graça do presente é sempre muito maior e melhor que a do passado, porque é o que Deus hoje nos quer dar, é o hoje de Deus na nossa vida. Esta aprendizagem ajudou-me a manter sempre uma atitude de pobreza interior e despojamento sobre todas as coisas, mesmo as espirituais, na liberdade e abertura para o novo de Deus. Isto criou em mim um dinamismo de procura constante da forma como Deus se faz presente em todas as coisas. Um dinamismo de procura do rosto de Deus, que sempre está presente, mas sempre se esconde.
À pergunta de Madalena ao jardineiro: «Se foste tu que o levaste diz-me onde o puseste?» gosto de responder com um versículo de S. Paulo, de 2 Coríntios 5, 16-17, que destaca que já não conhecemos a ninguém de um modo puramente humano e que quem está em Cristo é uma nova criação, pois o que era velho passou e tudo se fez novo. Em nós, o novo de Deus significa sempre transformação em amor. Pois, só o amor nos faz ver tudo com olhos novos.
Vamos aproximar-nos de S. João da Cruz e ver o que nos diz de Maria Madalena.
Para o nosso santo, Maria Madalena é o protótipo supremo da alma enamorada de Deus e o maior exemplo da eficácia do puro amor contemplativo. O santo carmelita recorre à figura de Madalena em várias das suas obras — como o Cântico Espiritual e a Chama de Amor Viva — para ilustrar o caminho que a alma percorre na união mística com o Cristo.
Podemos afirmar que a visão de São João da Cruz sobre ela baseia-se em três eixos principais:
O Exemplo Máximo do Puro Amor
No seu comentário à estrofe 29 do Cântico Espiritual, São João da Cruz defende uma das suas teses teológicas mais célebres: um pouquinho de puro amor é mais precioso perante Deus e a Igreja do que todas as obras exteriores juntas. Ele usa Maria Madalena para provar este ponto:
- O Silêncio Fecundo: O santo recorda a lenda tradicional da época, segundo a qual Madalena, após a Ascensão de Jesus, se retirou para o deserto (na cova de Bauma) durante trinta anos para se dedicar exclusivamente à contemplação.
- Mais útil à Igreja no silêncio: João da Cruz afirma que, embora a sua pregação pudesse render frutos externos visíveis, Madalena escolheu esconder-se no deserto por amor ao seu Esposo. Para o santo, esse “pequenino ato” de puro amor silencioso trouxe muito mais proveito espiritual à Igreja militante do que se ela tivesse continuado a viajar e a pregar abertamente.
A Alma que não se detém por Perigos
Na obra Noite Escura da Alma, João da Cruz descreve a urgência e a coragem da alma que está ferida de amor e procura o Divino a todo o custo. Ele evoca a madrugada em que Madalena foi ao sepulcro vazio:
- Desprezo do Perigo: O místico destaca que Madalena foi procurar Jesus de madrugada, na escuridão, enfrentando o medo dos guardas, o perigo dos soldados e a hostilidade do ambiente político.
- A Força do Desejo: Para o santo, quando a alma atinge esse nível de fervor amoroso, ela “não olha a perigos, nem a respeitos humanos, nem a conveniências”. O amor de Madalena era tão cego e absoluto que ela só tinha uma prioridade: encontrar o seu Amado.
O Toque Espiritual e o “Não me toques” de Jesus a Madalena
No tratado Chama de Amor Viva (especialmente no comentário à segunda estrofe), São João da Cruz aborda os “toques substanciais” de Deus na alma — as experiências místicas diretas onde o Espírito Santo toca o mais profundo do ser. É aqui que ele se cruza com a passagem do “Noli me tangere” (Não me toques):
- Ele explica que o toque divino que ocorre na oração contemplativa profunda é puramente espiritual e interior.
- Usando a lógica do “Não me toques”, o santo adverte que a alma não deve tentar reter Deus através de sentimentos físicos, visões imaginárias ou apegos sensoriais humanos. Assim como Jesus instruiu Madalena a desapegar-se da Sua presença física para a receber na forma espiritual, a alma que procura a união mística com Deus deve purificar os seus sentidos e não tentar “tocar” o Divino com os limites da carne.
Resumo da Perspetiva do Santo
| Obra de S. João da Cruz | O papel atribuído a Maria Madalena |
| Cântico Espiritual | O modelo da contemplativa cuja oração silenciosa e puro amor sustentam a Igreja. |
| Noite Escura | A alma corajosa que enfrenta a escuridão e os perigos do mundo guiada apenas pela fé. |
| Chama de Amor Viva | O exemplo da transição do amor sensível (afetivo) para o amor espiritual purificado. |
Hoje, como contemplativas, o que pode significar Madalena para nós?
Para as contemplativas de hoje, Maria Madalena não é apenas uma figura histórica a ser admirada, mas um espelho vivo da nossa própria vocação, um roteiro espiritual e a validação do nosso modo de vida na Igreja contemporânea. Num mundo dominado pelo ativismo, pela eficácia mensurável e pelo ruído, Madalena surge como a grande guardiã do mistério da intimidade divina.
Aqui está o que Madalena pode significar para nós, no nosso quotidiano contemplativo:
A Confirmação do Valor do nosso “Desperdício” por Amor
O mundo atual mede o valor das pessoas pela sua produtividade visível. Às vezes, até dentro da Igreja, a vida contemplativa e de clausura é questionada como “inútil”.
- O Perfume Derramado: Madalena, que derramou o perfume de nardo puro aos pés de Jesus (identificada pela tradição mística), ouviu a crítica dos discípulos que viam ali um desperdício. Jesus defendeu-a.
- Para nós hoje: Madalena recorda-nos que a nossa vida — gasta no silêncio do claustro ou na quietude da oração — é esse perfume precioso. Para o amor, nada é desperdício. O nosso “não fazer” exterior é, na verdade, o nosso ato mais fecundo para o Corpo Místico de Cristo.
A Mestra na Travessia da “Noite Escura”
A vida contemplativa passa inevitavelmente por desertos, pela aridez espiritual e pela aparente ausência de Deus — a “noite escura” de que falava São João da Cruz.
- A Busca no Sepulcro Vazio: Naquela madrugada de Páscoa, Madalena experimentou a perda absoluta. O Mestre estava morto e, para cumular a dor, o corpo tinha desaparecido. Mesmo na escuridão e na perplexidade, ela não desistiu; permaneceu junto ao túmulo, chorando e procurando.
- Para nós hoje: Madalena ensina-nos a fidelidade na ausência. Quando a oração parecer vazia e Deus parecer oculto, ela convida-nos a permanecer ali, firmes, guardando o sepulcro com as nossas lágrimas e o nosso desejo. O amanhecer e o encontro com o Ressuscitado são certos para quem sabe esperar.
A Arte de Reconhecer o Senhor pela Voz, não pela Forma
O episódio do “Noli me tangere” (Não me toques) e o engano inicial de Madalena (que pensou que Jesus era o jardineiro) contêm uma lição crucial para a contemplativa atual.
- O Chamamento pelo Nome: Ela só reconheceu Jesus quando Ele pronunciou o seu nome: “Maria!”. Não foi a visão física que a iluminou, mas a ressonância da Palavra viva no seu coração.
- Para nós hoje: Na clausura ou na cela, Jesus não se apresenta de forma espetacular. Ele vem disfarçado de “jardineiro” — na monotonia do quotidiano, na rotina dos deveres, no silêncio da capela. Madalena recorda-nos que a nossa missão é aguçar o ouvido interior para reconhecer a voz do Amado nas entrelinhas do silêncio diário.
A Profecia do Feminino que Sustenta a Fé
Madalena foi enviada por Jesus para anunciar a Boa Nova aos próprios apóstolos, que estavam trancados no cenáculo por medo.
- Apóstola dos Apóstolos: Ela recebeu a missão de sustentar a fé daqueles que deveriam guiar a Igreja, tornando-se a primeira teóloga da Ressurreição.
- Para nós hoje: Como contemplativas, a nossa missão na Igreja é a mesma de Madalena. Somos o coração que bombeia o sangue da graça para os membros que estão na linha da frente (os sacerdotes, os missionários, os leigos ativos). O Papa Francisco dizia-nos: «Sem o vosso testemunho silencioso de que Cristo está vivo e preenche uma vida inteira, a estrutura da Igreja arrisca-se a esvaziar-se de espírito.»
Síntese para a nossa Oração
| A Atitude de Madalena | O nosso Reflexo na Contemplação Hoje |
| Permanecer junto ao sepulcro | Fidelidade na aridez, na noite escura e na oração de pura fé. |
| Derramar o nardo precioso | Oferecer a nossa juventude, tempo e vida como um ato de puro amor. |
| Escutar o próprio nome no silêncio | Encontrar o Cristo Vivo na Lectio Divina e na oração do coração. |
| Correr para anunciar: “Vi o Senhor!” | Ser o suporte espiritual oculto de toda a Igreja e da humanidade. |
Deixo aqui a proposta orante de caminharmos com a Madalena e rezarmos como ela.
Meditação Contemplativa: O Som do Meu Nome no Teu Silêncio
A Preparação (O Sepulcro e a Noite)
Feche os olhos e sintonize-se com o silêncio do seu quarto ou da capela. Imagine-se na madrugada da Ressurreição. Está escuro, faz frio e há uma sensação de perda ou de aridez — aquela “noite” que tantas vezes visita a alma contemplativa. Sente-se ao lado de Maria Madalena, junto à pedra do sepulcro vazio. Deixe cair as defesas do ego. Una as suas lágrimas de cansaço ou de busca às dela. Permanecer ali, no vazio, já é um ato de amor.
O Encontro (O Jardineiro e o Disfarce)
Na penumbra, Alguém se aproxima. Maria pensa que é o jardineiro. Repare como o Senhor se esconde naquilo que é comum, na rotina, no trabalho humilde, no silêncio que parece não responder. Jesus não vem com estrondo; vem disfarçado de quotidiano. Olhe para a sua própria vida hoje: onde é que o Senhor tem estado “disfarçado” de jardineiro na sua rotina?
A Palavra (O Chamamento Interior)
Rompendo a distância, a Voz do Ressuscitado ecoa no mais íntimo do seu ser. Ele não faz um longo discurso. Ele diz apenas uma palavra: o seu próprio nome. Escute, no segredo do seu coração, Jesus a pronunciar o seu nome de batismo ou o seu nome religioso. Sinta a vibração dessa escolha. Toda a aridez desaparece quando percebemos que somos conhecidas e amadas pessoalmente pelo Esposo.
O Desapego (Noli me tangere)
Maria tenta segurar os Seus pés. Jesus pede-lhe para não O tocar, para O libertar. Na contemplação, acolha este convite: deixe ir as imagens antigas de Deus, os consolos sensíveis, o desejo de “sentir” a graça. Deixe que Ele seja o Espírito Livre. Ao não O reter na carne, Ele passa a habitar dentro de si, na união interior e sem distância.
Oração
Senhor Jesus Cristo, Esposo da minha alma,
Hoje coloco-me diante de Ti com o coração de Maria Madalena.
Como ela, escolhi a melhor parte:
A de permanecer aos Teus pés, escutando a Tua Palavra,
E a de gastar a minha vida, gota a gota,
Como o nardo puro que se derrama no silêncio do Teu altar.
Quando o mundo me disser que este silêncio é um desperdício,
Sê Tu, Senhor, a minha defesa.
Lembra-me de que o amor puro não se mede pela pressa das obras,
Mas pela fidelidade da entrega oculta.
Aceita o perfume da minha oração e do meu sacrifício escondido
Pela santidade da Tua Igreja e pela dor de toda a humanidade.
Nas madrugadas frias da minha alma, quando a aridez parecer um túmulo vazio,
Dá-me a graça da santa teimosia de Madalena.
Que eu não fuja do deserto, nem abandone o meu posto de guarda.
Ensina-me a chorar com esperança e a procurar-Te na pura fé.
E quando Te aproximares de mim nas entrelinhas da vida comum,
Chama-me pelo meu nome, Senhor!
Basta um sopro da Tua Voz para ressuscitar o meu fervor.
Liberta-me do apego aos Teus consolos (Noli me tangere),
Para que eu aprenda a amar-Te pelo que Tu és, e não pelo que me dás.
Faz de mim, nesta clausura, uma testemunha viva da Tua Páscoa.
Que o meu coração possa sussurrar continuamente ao mundo,
Através das misteriosas correntes da comunhão dos santos:
“Eu vi o Senhor! Ele está vivo no meio de nós.”
Amém.


