No Carmelo, a união com Deus chega a ser profunda e contínua, graças a uma actividade intensa das virtudes teologais, libertas, o mais possível, das paixões ou ideias humanas. Neste sentido, poder-se-ia dizer que o Carmelo é Deus com o mínimo de humano necessário para se apoderar dele e deixar-se apoderar por Ele. Deus conhecido e experimentado obscuramente na fé viva, Deus servido com amor em todos os momentos, Deus entregue ao próximo numa caridade sorridente. Tudo isso é um matiz de simplicidade essencial, de sobriedade na ordem dos meios e de verdade na expressão. O Carmelo é o Tudo através do nada. As máximas de definição de João da Cruz sobre o Tudo e o Nada alcançam na sua profundidade o mistério do Carmelo.

Tal ideal é puramente contemplativo. E da carmelita pode-se repetir o que dizia o cardeal Suhard na sua carta sobre o «Sentido de Deus» que ela está «consagrada pelo sentido de dar testemunho da transcendência de Deus». Nela deve ressoar o eco desta formidável e exclusiva afirmação pela qual Deus se define a si mesmo: «Eu Sou». Se tivéssemos uma fé maior esta obra luminosa realizar-se-ia em todos nós. Contemplar a Deus Ser e estar com Ele, satisfazer-se com a sua eternidade e infinita providência, amá-lo por Ele mesmo, não é isso a actividade suprema, «a obra» por excelência? Esta obra é por si mesma a sua própria recompensa e não se realiza em vista dum projecto qualquer. Teresa dizia a Deus que «ainda que não houvesse céu Te amara e ainda que não houvesse inferno eu Te temera».

As Carmelitas de clausura rigorosa vivem o ideal contemplativo, nesse sentido a sua vida conhece uma irradiação apostólica que, por ser invisível, não é menos eficaz. «Amando aos membros de Cristo amas a Cristo; amando a Cristo, amas também o Pai; é impossível dividir o amor», exclamava Santo Agostinho. No Carmelo experimenta-se muito bem esta impossibilidade de «dividir o amor». Santa Teresa recorda-nos com extremado vigor o fim apostólico que tinha presidido à refundação do Carmelo: «o fim das orações e dos mosteiros que ela fundou é o de trabalhar na propagação da fé». Desta forma, as Carmelitas apresentam diante de Deus a responsabilidade do mundo, no seio do qual formam ilhas de oração, separadas do ruído e da agitação exteriores, mas ao mesmo tempo plenamente abertos às angústias, aos sofrimentos e às preocupações de todos os seres humanos. Não deixam o mundo para se evadir dele, mas elevá-lo até à presença de Deus.

A carmelita é a apóstola da caridade, mesmo vivendo no interior do claustro o amor há-de ser tão grande que quebre as barreiras que o ser humano tende sempre a estabelecer. A contemplativa «não está chamada a ser Marta nem Maria», mas a uma vida superior que é a de Marta e Maria juntas, porque o amor as mantém unidas. Teresa de Jesus não se contenta apenas com o orar e sacrificar-se pelas missões distantes, procura igualmente fazer o bem ao seu redor, às Irmãs, aos que a visitavam ou lhe escreviam. A sua vocação de contemplativa não a dispensa de autênticos gestos de caridade cristã.

Este ideal é demasiado elevado para que a Carmelita o consiga por si mesma. Deus vai-lhe ensinando, no segredo da alma, a dilatação dos espaços interiores da caridade, que não pode ser praticada senão em Deus, através de uma vida de oração contínua.

Entra-se no Carmelo para se encontrar a Deus e manter com Ele esse contacto pessoal e vivente que se expressa na oração mais intensa.