«Pai, quero que onde Eu estiver, aqueles que Vós me destes, aí estejam comigo, a fim de que contemplem a glória que me destes, porque me amastes antes da criação do mundo» (Jo 17, 24). Tal é a última vontade de Cristo, a sua prece suprema antes de voltar ao Pai. Quer que onde Ele está, nós aí estejamos também, não apenas durante a eternidade, mas já no tempo que é a eternidade começada, embora sempre em progresso. Importa, pois, saber onde devemos viver com Ele para realizar o seu sonho divino. O lugar onde o Filho de Deus está escondido é o Seio do Pai. Pelo baptismo, nós fomos enxertados em Jesus Cristo. A Trindade, eis a nossa morada, o nosso “lar”, a casa paterna donde nunca devemos sair.

“Permanecei em mim” (Jo 15,4): é o próprio Verbo de Deus que dá esta ordem, que exprime esta vontade. Morai em mim, não por alguns instantes, algumas horas que têm que passar, mas “morai” de modo permanente e habitual. Permanecei em mim, orai em mim, adorai em mim, amai em mim, sofrei em mim, trabalhai em mim. Permanecei em mim quando vos apresentardes a qualquer pessoa ou fizerdes qualquer coisa. Penetrai sempre cada vez mais nesta profundidade.

Esta é verdadeiramente “a solidão a que Deus quer atrair a alma para lhe falar”, como cantava o profeta (Os 2,14). Mas para escutar esta palavra tão misteriosa, não se pode ficar, por assim, dizer à superfície. É preciso entrar sempre mais no Ser Divino pelo recolhimento. “Prossigo a minha caminhada”, exclamava S. Paulo. Assim devemos descer todos os dias e sondar o Abismo, que é Deus. Deixemo-nos escorregar por essa vertente numa confiança cheia de amor.

“Um abismo clama por outro abismo” (Sl 41,8). É aí no mais profundo que se operará o choque divino, que o abismo do nosso nada, da nossa miséria, se encontrará frente a frente com o Abismo da misericórdia, da imensidade do “tudo” de Deus. É aí, que havemos de encontrar a força para morrermos para nós mesmos e que, ao perder a nossa própria imagem, seremos transformados em amor. Quando este amor tiver atingido a perfeição, a alma terá penetrado no seu centro mais profundo.

Santa Isabel da Trindade